O temor de Pelé

Pelé mostrou-se preocupado, na sexta-feira, com a possibilidade de o Brasil passar vergonha na organização da Copa de 2014. O Rei do Futebol externou o sentimento de qualquer cidadão comum e de bom senso que resista a embarcar na onda do oba-oba em torno do evento. Faltam menos de 3 anos e meio para a competição, há muitas promessas e negociações, mas pouca ação. Por aqui ainda se brinca de fazer o Mundial.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2011 | 00h00

O desassossego de Pelé cairá no vazio. Por vários motivos. O primeiro é o próprio Pelé. Personagem mais importante do esporte nacional em todos os tempos, mito inabalável, com carisma incomparável, ele faz parte desse meio. Não rema contra a maré. Ao contrário, vira e mexe, associa sua imagem às iniciativas oficiais ligadas ao tema. Aparece em solenidades para emprestar sua credibilidade, mesmo que no íntimo não o faça com convicção. Vai porque pertence a essa engrenagem, atende a interesses dela. Não é inocente útil, como se dizia décadas atrás.

Não adianta agora criticar o que contou com seu respaldo. Pelé sabia desde o começo que seria figura decorativa na Copa brasileira, assim como serão Romário e Ronaldo, o mais recente embarcado nesse trem. Eles não apitam coisa alguma, nem serão consultados para nada que se relacione ao Mundial.

Que sejam chamados de Embaixadores, Consultores ou qualquer outra designação pomposa. Não passam de figurantes de luxo e prestígio. Talvez recebam pelo trabalho, circularão pelo mundo, participarão de cerimônias, posarão ao lado dos donos da bola, darão entrevistas otimistas. E basta. Aqui não é França, para que um Platini ponha a mão na massa, muito menos Alemanha, onde Beckenbauer deu as cartas do começo ao fim. Mandam os de sempre - que não largam nem filé nem osso.

O Brasil não vai mudar com o Mundial; no máximo, passará por maquiagem, vai vestir uma fantasia, fingirá para os turistas que tudo foi pensado e planejado. Já que somos o País do Carnaval podemos estendê-lo para junho e julho de 2014, época em que os gringos virão aqui para curtir nossas belezas naturais, o samba, o café, as mulatas, caipirrinha, oh yeah!, Amazônia, favelas... os estereótipos de sempre.

Enquanto isso, levantam-se suspeitas nas contas da reforma do Maracanã, o estádio do Corinthians está encruado e à espera de incentivo público, Natal nem concorrência tem para seu campo. Aeroportos, com exceções, estão ultrapassados, a infraestrutura das cidades é indigente (qualquer chuva mais forte faz São Paulo naufragar), segurança é de dar medo (tiroteios paralisam o Rio com frequência). Mas fique tranquilo, Pelé: muita gente, por aqui, não ficará nem um pouco vexada na Copa. Ao contrário, colocará o burro na sombra.

Construção x Desmanche. O Corinthians x Santos da tarde de hoje no Pacaembu vai além de novo capítulo do mais antigo clássico paulista. O reencontro dos dois alvinegros resume o momento em que se encontram. O da Baixada está em fase de reconstrução, manteve seus principais jogadores ao final de 2010 e trouxe opções para Adilson Batista. Tem a justa pretensão de brigar pelo título estadual e o da Libertadores. A turma do Parque São Jorge tenta refazer-se do desgaste com a eliminação na Libertadores e, pior, se depara com desmanche.

É possível alegar que reagem aos sinais que recebem do mercado e se comportam como empresas que zelam pela saúde de seus caixas. Não se trata de leitura errada - o Santos pode até chegar ao título mundial, no final do ano. O Corinthians no máximo festejará mais uma conquista paroquial e a quinta coroa da Série A nacional. As projeções de ganhos e despesas dos dois lados são bem díspares, assim como seus investimentos. O Corinthians merecia mais.

Ah, o poder. Quer dizer que Juvenal Juvêncio luta para juntar mais dois anos aos seis que já leva como presidente do São Paulo? Que mudança para um clube "difereeeeen-te", que permitia no máximo uma reeleição...

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