O terno dourado de Ronaldo

No Brasil, virar tema de escola de samba equivale a ganhar um Prêmio Nobel. É o reconhecimento final. Coisa para poucos, para as unanimidades... bem, alguns arrivistas também já foram lembrados, mas em geral homenageado de escola de samba faz por merecer. Gente como Tom Jobim, Pixinguinha e, agora, Ronaldo.

LUIZ ZANIN, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2014 | 02h04

Sim, o Fenômeno, que tão cedo deixou o Brasil, escolheu ser melhor do mundo na Europa, voltou em fim de carreira para se tornar ídolo e se consagrar com a camisa do Corinthians, foi o homenageado pela Gaviões da Fiel, a escola da famosa torcida organizada do Timão. De terno cor de ouro, Ronaldo teve sua vida cantada em prosa e verso no Anhembi. Estava emocionado. Com razão.

O desfile de Ronaldo celebrou duas instituições tipicamente brasileiras - o carnaval e o futebol. Não inventamos nem um nem outro. Ambos vieram de fora. Foram importados por este país no qual "nada é estranho porque tudo o é", como disse um pensador genial, Paulo Emilio Salles Gomes. Quer dizer, importamos quase tudo que compõe nossa cultura, mas trabalhamos o material estranho à nossa maneira, até torná-lo tão nosso como se aqui houvesse nascido.

Foi assim com o futebol, que veio da Inglaterra e em poucas décadas tornou-se brasileiro da gema. E também o carnaval, que é festa linda em Veneza e em outras cidades. Mas pergunte a um europeu o que é o carnaval e ele terá uma palavra de três letras na ponta da língua para defini-lo: Rio. Carnaval e futebol têm origens semelhantes e desenvolvimentos comparáveis no interior da história brasileira. Vieram de fora, caíram no gosto do público e aqui se aclimataram. De início, práticas de elite (como nos corsos carnavalescos) foram apropriados pelas camadas pobres da população.

No início, o futebol era praticado em clubes fechados. Negros não entravam. Mas havia a rua, e carnaval e futebol começaram a ser praticados pela população em geral, tanto pelos ricos como pelos pobres. Veio destes a chama maior de criatividade, que transformou carnaval e futebol em artes maiores, tipicamente brasileiras. Desse arranjo saíram obras-primas da cultura nacional como a seleção de 1958 e a Estacão Primeira de Mangueira, para ficar em dois exemplos. Do ponto de vista individual, a trajetória de Ronaldo representa a de muitos outros garotos saídos do nada e que se tornaram ricos e famosos por meio do futebol.

Num país em que a ascensão social é quase impossível, o jogo da bola continua a ser uma as poucas opções de sucesso de que dispõe um garoto pobre e talentoso. Pelé, Zico, Ronaldo, Robinho, Neymar e tantos outros, no passado e no presente, safaram-se de condições desfavoráveis para se tornarem ícones do sucesso individual em um país injusto.

Ao se desenvolverem, futebol e carnaval tornaram-se presas dessa mesma vocação para o sucesso. Apropriado pelos pobres, o futebol parece retornar à elite de onde saiu. Os estádios "padrão Fifa" não foram planejados para abrigar pessoas do povo. Neles, os jogadores, muitos deles saídos da pobreza, se exibirão para um público que pode pagar caro pelo ingresso e esteja apto a consumir nas butiques da "arena".

São esses os consumidores que interessam, e não aqueles antigos, meio desdentados, que assistiam aos jogos em pé, espremidos contra os alambrados e agarrados à bandeira do clube. Isso é coisa do passado. Do mesmo modo, o desfile das escolas de samba do Rio tornou-se gigantesco espetáculo midiático, que mobiliza fortunas em transmissão pela tevê, publicidade e venda de ingressos aos turistas.

Há queixas de que as comunidades têm sido progressivamente excluídas para dar lugar a destaques da moda, celebridades locais e gringos que nunca deram um passo de samba, mas podem comprar a lembrança inesquecível de haverem desfilado um dia por uma grande escola. A composição social das arquibancadas da Marquês de Sapucaí parece muito semelhante à que teremos nas novas arenas da Copa do Mundo.

O terno dourado de Ronaldo contém uma simbologia evidente.

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