O tímido melhor futebol do mundo

Dias desses caminhava por um centro comercial de Arequipa, no Peru, quando detalhes me chamaram a atenção. O primeiro deles foi o preço daqueles artigos internacionais, ou seja, que são vendidos em todo o mundo. Em 90% dos casos, paga-se por eles a metade - ou menos - do valor desembolsado no Brasil. Exemplos: um automóvel de uma marca japonesa, que por aí custa R$ 70 mil, aqui se leva por US$ 18 mil (R$ 32 mil). Um videogame, vendido na promoção em sites brasileiros por R$ 1,8 mil, sai para os peruanos por R$ 800.

Wagner Vilaron, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2011 | 00h00

Então pensei o óbvio: o preço aqui é mais baixo porque o rendimento médio da população é menor. Nesse momento, fui informado de que em ambos os casos os produtos são ainda mais em conta na Europa e nos Estados Unidos. Bom, só tive uma alternativa, me dirigi à farmácia mais próxima e comprei um remédio para dor de estômago e enjoo. Pela metade do preço, claro! E por aí vai. Ah, isso sem falar nos produtos fabricados no Brasil e que, mesmo importados para cá, saem mais barato. Pois é, parece que o dia a dia anestesia nossa indignação. Esses períodos fora são bons para reacendê-la e mostrar o quanto nossa realidade tributária é distorcida.

Mas o abuso nos preços praticados no Brasil não é o assunto central desse texto. Afinal, nosso negócio é futebol. E esse é o segundo aspecto que chamou minha atenção. Nas lojas de material esportivo, vendem-se camisas da maioria dos grandes clubes europeus, como ocorre no Brasil. Vendem-se, também, camisas dos dois principais clubes argentinos (Boca Juniors e River Plate), mas nada em relação ao futebol brasileiro. O máximo que vi foi uma camisa verde-limão falsificada do Palmeiras. Um camelô de Tacna a vendia por 20 sóis, algo como R$ 12.

Lembro que na época em que Corinthians e Palmeiras negociavam o contrato de fornecimento de material esportivo, um dos aspectos tratados com os executivos das multinacionais - as mesmas que fornecem para os grandes europeus e para os argentinos - era exatamente a internacionalização das marcas. Ou seja, os clubes brasileiros queriam que suas camisas estivessem expostas nas araras das lojas de todo o planeta. Mas, pelo visto, a vontade dos clubes não é a vontade do mercado, ou as empresas contratadas não cumpriram o acordado. Citei o Peru porque estou aqui no momento. Mas já tive essa percepção nos demais países sul-americanos e na Europa.

Difícil imaginar que clubes do futebol mais vencedor do mundo, organizador da próxima Copa do Mundo, que trouxeram nomes consagrados, mesmo em fim de carreira e que já conseguiram até ganhar queda de braço com gigantes europeus, como foi o caso do Santos contra o Chelsea pelo atacante Neymar, não despertem atenção, curiosidade e/ou interesse do mercado internacional. Complicado entender o motivo de o Boca Juniors ter mais mercado no Brasil do que qualquer clube brasileiro na Argentina.

Levantei essas e outras questões com dois executivos, um argentino e outro chileno, ligados ao mercado esportivo. Em resumo, me explicaram que o fato de o Brasil ser o único País da América do Sul que não tem o espanhol como idioma dificulta, pois os veículos de comunicação dos países vizinhos têm problemas para produzir informação sobre o futebol brasileiro. Além disso, dizem eles, o mercado brasileiro, pelo tamanho que tem, já propicia o lucro esperado pelas empresas, a ponto de o Corinthians ter um dos seis melhores patrocínios de camisa do mundo sem nenhuma estratégia de divulgação internacional.

Com todo o respeito a meus dois interlocutores, achei suas impressões distorcidas. Primeiro porque a língua inglesa, alemã e francesa não foi obstáculo para clubes desses países ganharem mercado por aqui. Segundo porque nunca vi empresa que não queira ganhar mais. Ainda busco respostas.

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