''O título não me fez diferente''

SEBASTIAN VETTEL

Entrevista com

Livio Oricchio, ENVIADO ESPECIAL / KUALA LUMPUR, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2011 | 00h00

Piloto da Red Bull

Com três vitórias e uma segunda colocação nas cinco últimas etapas da temporada do ano passado, Sebastian Vettel reverteu uma situação que parecia perdida na classificação do Mundial e se tornou o mais jovem campeão da história da Fórmula 1, aos 23 anos: 256 pontos diante de 252 de Fernando Alonso, da Ferrari. Este ano o piloto da Red Bull começou vencendo, na Austrália, e desde já é o favorito, pela maturidade alcançada e o carro que tem, para conquistar não só a vitória no GP da Malásia, amanhã, como o título novamente.

Nessa entrevista ao Estado, em Kuala Lumpur, o campeão do mundo confirma que tanto ele quanto o genial projetista Adrian Newey vão permanecer na Red Bull até o fim de 2014, pelo menos. E deixou claro que não aceitaria a ótima proposta da equipe para estender o contrato por mais dois anos se não fosse a garantia dada pelo competente diretor técnico de que não deixará a Red Bull. A Ferrari havia feito oferta irrecusável a Newey. Vettel já tinha compromisso até o fim de 2012.

Estima-se que o jovem alemão passou a ganhar, a partir deste ano, 15 milhões (R$ 37,5 milhões) por temporada. Newey, 10 (R$ 25 milhões). Sempre sincero e solícito, Vettel também falou de sua vida pessoal: "O título não me fez diferente. Sou o mesmo com meus amigos, continuamos jogando futebol e na maioria das vezes falamos de meninas".

A Ferrari não esconde que desejava contratar você e Newey.

A Ferrari é especial, uma lenda, somos pequenos em comparação a ela, teria orgulho de colocar meu nome na sua lista de pilotos, mas nesse momento sinto-me satisfeito onde estou e renovei por mais dois anos.

Você perguntou a Newey se permaneceria também até o fim de 2014?

Sim. Antes de planejar o futuro é preciso entender o que pode ocorrer na equipe. De repente, na próxima temporada não apenas Adrian (Newey), mas outros profissionais de importância deixam a Red Bull, como fica? Agora que sei que ele e alguns personagens chaves se sentem felizes no time e vão continuar, estendi meu compromisso.

Depois de muita luta e a superação de momentos difíceis em 2010, você acabou campeão e ganhou o número 1 no carro.

É verdade, mas do cockpit eu não vejo o número do carro. Em 2010, o objetivo era ter no meu Red Bull o número 1, mas vi que não me fez mais veloz. É como no futebol, o fato de fazer um lindo gol não significa que vale por dois, ganhei só um título até agora e o desafio do segundo é o mesmo do primeiro.

Sua vida mudou com o título?

Penso que depende de você permitir mudar ou não. Na minha cabeça eu sou, por exemplo, o mesmo com os meus amigos, nos conhecemos na infância. Não falamos quanto cada um ganha, que carro possui, nem faria sentido por conta do que faço. Às vezes me fazem perguntas sobre a Fórmula 1, eu as respondo, mas não é comum. Continuamos jogando futebol e na maioria das vezes falamos de meninas. Na vida pessoal, se você tem uma família e amigos que te amam, se você foi campeão ou não, a não ser naquele instante de celebração, a vida não muda.

Adquirir um jato particular e comprar um iate, como é em geral o que acontece quando se é campeão na Fórmula 1, está nos seus planos?

Eles são demasiadamente caros e você precisaria de dinheiro de sobra para investir nisso e não é o meu caso.

Não há vencedor na Fórmula 1 que não reclame de falta de privacidade depois da fama.

Amo pilotar, amo estar aqui para correr e às vezes é difícil compreender a abrangência da Fórmula 1. Vou a lugares em que nunca estive antes, depois do voar muitas horas, no fim do mundo, e de repente alguém me reconhece. É uma sensação boa, divertida e você entende melhor o que é a F-1. Agora, se eu começasse a mostrar, olha esse é o meu cachorro, aquele é o meu quarto, o meu banheiro, logo as pessoas iriam querer saber mais. Tenho passado a mensagem de que a partir desse ponto entramos na minha vida particular e, por favor, respeite-a. Nunca deixei de ser atendido.

Regularmente você faz citações a sua família, seu pai o acompanha com regularidade. Esse conceito de família parece forte em você. Já começou a pensar em formar a sua?

Somos unidos. Eu, meu pai, minha mãe, duas irmãs e um irmão. Quando éramos pequenos, às vezes questionávamos, como toda criança, a razão de nossos pais agirem conosco de determinada maneira. Hoje enxergamos o quanto eles acertaram, posso dizer que são a minha maior inspiração como pessoa. É natural que eu deseje estender esse amor a meus filhos também. Ainda não é com isso na cabeça que acordo de manhã, mas certamente vou amar ter os meus próprios filhos. (Norbert, pai de Sebastian Vettel, ainda mantém uma pequena empresa especializada na instalação de telhados.)

A Fórmula 1, segundo vocês mesmos, pilotos, está bem diferente neste ano. O que pensa?

Está. Você não pode mais dar 100% de si e do carro toda volta. Nosso desafio, com esses pneus (propositadamente desgastam-se bem mais rápido que no ano passado) você tem de descobrir, ainda, o que é melhor fazer. Posso acelerar mais, devo administrar seu consumo? Em que momento? Antes, era dar tudo até fazer o pit stop e depois acelerar o que podia de novo.

Ao menos na Austrália, a Red Bull deu sinais de estar bem à frente dos concorrentes. Esperava mais da Ferrari? E Felipe Massa, o que acontece com ele?

Ninguém imaginava que a McLaren andasse como andou, em Melbourne, apesar de ter copiado o nosso sistema de escapamento, mas isso é normal na Fórmula 1. É preciso ter calma. Vencemos uma corrida. As coisas mudam rápido, a exemplo de 2010. Aqui na Malásia vamos ter uma fotografia mais real de como será o início do campeonato. Acredito que a Ferrari também deva ser forte como foi na pré-temporada. Sobre Felipe, os pilotos não desaprendem de uma hora para a outra. Só não foi campeão em 2008 por um detalhe. Deve estar enfrentando alguma dificuldade, mas uma vez resolvida o vejo com um piloto muito veloz.

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