O topo do mundo, há 50 anos

Brasil celebrava título histórico e inédito em 1959: o Mundial do Chile

Amanda Romanelli, O Estadao de S.Paulo

25 de janeiro de 2009 | 00h00

Felizes os brasileiros que viveram entre fins de 1950 e o início da década de 1960, campeões do mundo quatro vezes. Tempos em que o País não só comemorou os primeiros dois títulos do futebol - em 1958 e 1962 - mas, também, as primeiras vitórias de uma modalidade que dividia torcida com o esporte bretão. Em 31 de janeiro de 1959, éramos, pela primeira vez, campeões mundiais. De basquete. Em 1958, um menino de 17 anos, negro, chamado Pelé, assombrou o mundo nos gramados da Suécia. Era seu companheiro um fenômeno de pernas tortas, Garrincha. No ano seguinte, a equipe de bola-ao-cesto tinha dupla de talento equivalente: o ala Amaury Pasos e o pivô Wlamir Marques. Ambos estariam também na conquista de 1963, última vez em que o Brasil subiu ao topo do pódio. O Brasil mal havia conquistado o título de 1958 quando, no ano seguinte, a seleção liderada pelo capitão Algodão e comandada pelo técnico Renan Togo Soares, o Kanela, levaria o nome do País ao topo mais uma vez. Campeãs, ambas as delegações fizeram o mesmo percurso: foram recebidas pelo presidente Juscelino Kubitschek no Palácio do Catete. "Dois títulos mundiais em dois anos? O senhor é muito sortudo!". A frase, garante o ex-armador Pecente, foi dita a JK por um auxiliar. "E o presidente respondeu: ?Então vá espalhando isso por aí!?", lembra o ex-jogador de 74 anos, em entrevista ao Estado, de Piracicaba, onde vive desde 1955.Dos 12 jogadores campeões, apenas seis estão vivos: Amaury Pasos, Edson Bispo, Jatyr, Pecente, Wlamir Marques e Waldir Boccardo. Morreram Algodão, Fernando Brobró, Otto, Waldemar, Zezinho e, em dezembro passado, Rosa Branca, além do técnico Kanela. Os remanescentes serão levados para Brasília nos dias 30 e 31 - sexta e sábado -, onde serão homenageados pela Federação Brasileira de Basquete Master e devem ser recebidos no Palácio do Planalto. A Confederação Brasileira de Basquete (CBB) não irá realizar qualquer festa. A entidade, contudo, garante que não esquecerá a data. Planeja um encontro dos campeões mundiais com a seleção brasileira masculina que, em junho, estará reunida em preparação para a Copa América do México. OBSTINAÇÃOEm 1959, defender a seleção era mais que um ato de amor - era pura obstinação. "Tínhamos que nos dividir entre os treinos nos clubes, os períodos na seleção e nossas atividades profissionais, onde realmente ganhávamos dinheiro", lembra Wlamir, 71 anos, cestinha do Mundial com 149 pontos marcados. Funcionário dos Correios, sofreu cinco processos de abandono de emprego. "Os pedidos de licença nunca chegavam a tempo."A preparação durou longos cinco meses e passou por várias cidades: Águas de São Pedro, Piracicaba, Rio, São Paulo... "Não ficamos concentrados em hotéis. Era no quartel mesmo", lembra Edson Bispo, 73 anos, ex-aspirante a oficial. "E treinávamos, treinávamos muito. Era só basquete."Embora o Brasil (já vice-campeão do mundo em 1954) lutasse de igual para igual com EUA e URSS, uma questão política definiu o título de 1959 em favor dos brasileiros: União Soviética e Bulgária recusaram-se a enfrentar a China Nacionalista (hoje Taiwan) por questões políticas, já que não tinham relações diplomáticas com aquele país. Os soviéticos deixaram de erguer o troféu porque todos os pontos da segunda fase foram retirados. Uma mancha no título brasileiro? "Jamais!", afirma Wlamir. "Falo sem receio que, sim, a URSS perdeu os pontos. Não é vergonha, é um fato. Mas éramos tão bons quanto eles." Tanto que, em 1963, a festa se repetiu.

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