O torcedor é punido no caso Neymar

Depois de quase um mês fora do Brasil, volto e encontro Neymar suspenso. Vi as cenas da briga com Dorival Jr. O rapaz pisou na bola e tinha mesmo de ser punido. A única coisa que me pergunto é: tirá-lo de campo significa punir a quem? A ele ou ao Santos, que, ao que eu saiba, sua sangue para mantê-lo por aqui e pagá-lo? A punição é ao faltoso ou ao futebol, tão indigente hoje em dia que não pode dispensar um dos poucos jogadores que fazem a diferença em campo?

Luiz Zanin, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2010 | 00h00

Faltam craques, sabemos. Para comprovar a mediocridade, que é regra e não exceção, bastaria ter visto o pálido empate entre Guarani e o próprio Santos. O time da Vila tem bons jogadores, mas sem Ganso e Neymar é um time assustadoramente comum. Mais do que isso: preguiçoso. Pareceu conformado com o empate diante de um adversário muito inferior tecnicamente. De qualquer forma, o que se viu foi um futebol sem qualquer criatividade. Faltava uma centelha em campo. E ela só poderia vir de quem estava no camarote, assistindo à partida ao invés de jogá-la.

Alguma coisa precisaria ser feita, disse acima, e repito. Mas não me parece caso de tamanha gravidade a ponto de ter despertado uma verdadeira cruzada moralista tendo por alvo um menino e seus destemperos. O ápice veio de quem não se esperava, de um dos poucos técnicos com maneiras e hábitos mentais contemporâneos, René Simões, que se saiu com esta: "Estamos criando um monstro!" Que destempero. Quanta falta de preparo para enfrentar uma situação que precisa ser compreendida de maneira mais humana, exatamente porque tão complexa e cheia de matizes.

Será que nenhum dos críticos acerbos de Neymar teve 18 anos algum dia? Será que não se lembra de como pensa um adolescente? Para ele, em geral, os pais são umas bestas, o mundo é povoado de gente medíocre e incapaz de compreendê-lo, e só encontra diálogo e felicidade em meio à sua turminha, formada de iluminados. Quem não foi assim? Agora, imaginem essa situação turbinada ao máximo num jovem que se torna ídolo, que é reconhecido nas ruas, ganha um monte de dinheiro e tem seu rosto todo o dia na TV, nas revistas e jornais? É para ficar meio fora do eixo.

Imaginem também a anomalia familiar que representa um indivíduo desses. Em geral, o adolescente rebelde é dependente da família. Ele até pode se achar o umbigo do mundo e mesmo assim terá de morar com os pais, dos quais recebe mesada, cama e roupa lavada. A rebeldia fica assim bastante relativizada. E quando se dá um caso destes, em que é a família que depende do garoto e não o contrário? Já pensaram no nó simbólico que uma situação dessas é capaz de fazer na cabeça de um rapaz - também nas de seus familiares?

De modo que Neymar não é alguém para ser execrado e sim para ser compreendido. Outro dia ouvi no rádio um psicólogo dizendo, do alto da sua sabedoria, que não via sinceridade no pedido de desculpas do jogador. Quanta arrogância! Quanta invasão da subjetividade alheia! Esses senhores cobram humildade a um menino de 18 anos, mas eles próprios não têm o menor pudor em atirá-lo às feras, como se fosse uma aberração. Neymar é apenas humano. Demasiado humano. Um adolescente confuso, numa situação atípica. Precisa de apoio e simpatia, mais do que críticas e impropérios.

Isso não quer dizer que seja um santinho. Pelo contrário. Se fosse, não jogaria como joga. Neymar precisa de limites. Eles virão. Do Santos, de Dorival, de Mano Menezes, que já está de olho nele. Pisou na bola, foi multado, suspenso, pediu desculpas públicas - e agora acabou. Vamos botar o menino para jogar, porque o torcedor não tem culpa de nada e é ele, no fundo, o verdadeiro punido nessa história toda.

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