O último grande triplista se despede

"Quero agradecer a todos os brasileiros pelo apoio que me deram. Eu não desapontei o Brasil. Agora, por favor, deixem-me só que quero chorar. Acho que nunca chorei na minha vida, mas agora vou chorar".

ALESSANDRO LUCCHETTI, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2012 | 02h03

Com essas palavras, Nelson Prudêncio se dirigiu aos repórteres que foram entrevistá-lo após a histórica final olímpica do salto triplo dos Jogos do México, em 68, segundo reportagem assinada por Ludenbergue Goes e Camel Rufaiel, enviados pelo Estado para a Cidade do México.

Assim como Nelson naquele dia, a comunidade do atletismo brasileiro chora hoje. O luto é pela morte de um dos triplistas que firmaram a vocação nacional para a prova entre as décadas de 50 e 80, ao lado dos também já falecidos Adhemar Ferreira da Silva e João Carlos de Oliveira.

O medalhista olímpico - prata no México e bronze em Munique/72 - se despediu à 0h15 de ontem, em São Carlos, aos 68 anos. Prudêncio soube, há 15 dias, que tinha câncer pulmonar. A doença avançou rapidamente, e na quarta-feira, ele já entrara em estado de coma irreversível.

O corpo foi sepultado ontem à tarde. Compareceram ao enterro centenas de familiares, amigos e atletas. Entre eles, Maurren Maggi, campeã olímpica no salto em distância em 2008, nascida em São Carlos. "Aprendi muito com ele, ele foi meu meu maior incentivador."

Na final de 68, Prudêncio chegou a ser detentor do recorde mundial, ao registrar um salto de 17,27m, e saboreou a possibilidade de pendurar o ouro no peito. Ele havia voado para desbancar o italiano Giuseppe Gentile, que alcançou 17,22m. Mas o soviético Viktor Saneyev, em sua última tentativa, superou Prudêncio com uma marca ainda mais excepcional, de 17,39m, e se sagrou campeão olímpico.

De qualquer forma, Prudêncio inscreveu seu nome como um dos protagonistas de uma das mais fantásticas provas olímpicas de todos os tempos, com o registro de nove recordes mundiais ao longo de quatro horas.

Na época, Prudêncio treinava duas vezes por semana, no complexo esportivo Bolão, em Jundiaí, porque trabalhava como torneio mecânico e fazia curso de projetista mecânico à noite.

O triplista embarcou para o México sem conseguir o índice estipulado para integrar a seleção brasileira. O COB, no entanto, o incluiu na delegação, baseado em seu potencial. Em 1966, ninguém menos do que o bicampeão olímpico da prova (52/56), Adhemar Ferreira da Silva, apontara o saltador nascido em Lins, em 1944, como seu sucessor.

Alto nível. Em pouco tempo, Prudêncio demonstrou ser um atleta de primeira. Até 64, nunca havia treinado atletismo. Era bom jogador de futsal e futebol de campo. Na época, foi chamado pelo treinador Reinaldo Ienne, que apostou em seu corpo esguio (1,80m e 72kg) e quis testá-lo no Bolão, que ficava a duas quadras da casa de Prudêncio. O atleta gostou. Com apenas cinco meses de treino, tornou-se campeão sul-americano do triplo.

Nos Jogos Pan-Americanos de 1967, em Winnipeg, no Canadá, Prudêncio já conquistou a prata. E isso numa época em que o Pan tinha alto nível em algumas modalidades. Para ficar num exemplo, o cubano Perez Prado Dueña quebrou o recorde mundial no Pan seguinte, em Cáli, na Colômbia, ao saltar 17,40m.

Questionado. Mesmo depois de conquistar a prata olímpica dispondo de condições precárias, Prudêncio foi questionado. O Brasil vivia sob regime ditatorial, e o Comitê Olímpico Brasileiro era comandado pelo major Sylvio de Guimarães Padilha.

Após subir ao pódio no México, Prudêncio entrou para a Aeronáutica, como soldado, pois as Forças Armadas tinham melhores instalações esportivas.

A mera ausência de Prudente da Olimpíada do Exército, organizada em Porto Alegre em 72, levou Padilha a ameaçá-lo de excluí-lo da delegação brasileira que participaria da Olimpíada de Munique. O presidente do COB alegava que não poderia incluir um atleta que não estava competindo, pois sua forma física e técnica seriam incógnitas.

No início da década de 70, os países mais desenvolvidos no atletismo já dispunham de pistas com a superfície emborrachada, o tartan. A Cidade Universitária ainda estava instalando, na época, esse revestimento em sua pista. Dessa forma, Prudêncio não titubeou quando recebeu o convite alemão para treinar em uma de suas universidades. O atleta viajou em junho, a fim de apressar a adaptação às condições alemãs. O convite não se estendia a seu treinador na época, Clóvis Nascimento. Prudêncio abriu mão do acompanhamento do técnico, que consultava enviando cartas pelo correio.

A pressão sobre Prudêncio era grande. Mesmo assim, conquistou outra medalha em 72, o bronze, com a marca de 17,05m. Saneyev novamente levou o ouro (17,35m), seguido pelo alemão oriental Jörg Drehmel (17,31m).

Prudêncio saltou até 75. Ele competiu no Pan do México, vencido por um certo João do Pulo, que cravou recorde mundial: 17,89m. "O que o João fizera, eu não poderia fazer", admitiu Prudêncio, que resolveu parar.

Dedicado à carreira acadêmica, Prudêncio, doutor em atletismo pela Unicamp, era professor na Universidade Federal de São Carlos. Desde 2004, era também vice-presidente da Confederação Brasileira de Atletismo.

Morre Nelson Prudêncio, que firmou a reputação do salto triplo do Brasil, assim como Adhemar da Silva e João do Pulo

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