O velho navio

Estava para fazer essa visita desde que foi inaugurado, mas só ontem fui ao Museu do Futebol. Com menos tempo do que o necessário, pois minha visita aconteceu de surpresa, não imaginava que iria gastar aquela hora perdida passeando pelas costelas do velho estádio. E surpresa maior encontrei lá dentro. A começar pela exposição temporária que aborda o espírito de colecionador que tangencia o culto ao esporte. Uma mostra com dezenas de camisas de clubes de menor expressão (menor torcida, seria melhor dizer), uma de times de futebol de botão e aquela que mais me encantou: uma exposição de flâmulas. Sempre achei que a flâmula triangular é a peça mais elegante e charmosa para exibir a beleza do distintivo. E não estava enganado. Embora não tão grande em número, a amostragem é rica e diversa. A flâmula é o símbolo que une o futebol ao glamour do passado. Mas o conteúdo permanente é deslumbrante. Não vou descrever aqui a quantidade de informação, de imagens, de fotografias que abriga o museu. Seria impossível e inútil. Vou me ater a uma pequena seção, a que mais me tocou. No segundo pavimento há um cotovelo de concreto que fica sob o vão das arquibancadas, está montada uma instalação que homenageia os torcedores. É um vídeo de 7 minutos exibido em múltiplos telões, com imagens simultâneas e contrapostas, em que aparecem cenas de diversas torcidas, agrupadas por Estados, por rivalidade. Num primeiro instante, você é levado a crer que há apenas uma imagem sendo exibida em diferentes planos, mas na verdade elas dialogam e se confrontam. E os flagrantes da massa anônima e uniformizada revelam toda a eletricidade gerada na arquibancada: a tensão e a descontração, a apreensão e a comemoração, o grito, o pulo, o gesto, o urro. São cenas tocantes e emocionantes, reveladoras do que se passa lá no estádio, entre aqueles que se encontram para vibrar por um mesmo time. Desde ovações e cânticos, batucadas e charangas, gritos de guerra, danças, chuva serpentinal de papel descendo da arquibancada ao campo - é tudo muito lindo, catártico. Confesso que fui às lágrimas. Não há nada que se compare a essa força que emana dos anéis de cimento quando uma multidão se agita em busca de alegria. O que é o estrondo de uma torcida gritando um gol? Que som é esse? Que música pode ser melhor entendida do que essa que não tem palavras? Fica absolutamente claro porque o futebol é apaixonante e é fundamental. Quem nunca berrou um grito de gol em plena arquibancada ainda não viveu. Percorri as outras seções - inúmeras, belíssimas - ainda inflamado por aquelas cenas. De certa maneira, passei os olhos nas infinitas imagens e fotografias um pouco desatento, quase desligado. Não tenho dúvidas de que tenho de voltar lá para poder absorver a enorme quantidade de informação. Mas, enquanto caminhava ainda atordoado pelo eco dos gritos ouvidos, fui brindado com uma incrível visão: há um terraço que nos permite ver a maravilhosa paisagem do interior do estádio. Meu Deus, que espetáculo divino! O verde do gramado acentuado pelo contraste do cinza do céu cheio de nuvens; as arquibancadas vazias com suas cadeiras traçando um anel ao redor da original topografia; as torres de iluminação; o tobogã. Na encosta do velho bairro do Pacaembu, um navio ancorou suas cabines refeitas em degraus, ferro e clorofila. Mesmo vazio de qualquer gente, com nenhuma torcida, aquele lugar é palco para o eterno desfile das almas tremulantes que lá, um dia, deixaram a dádiva da gota duma lágrima, dum sorriso, dum suspiro. Que me perdoem os corintianos, mas o Pacaembu não tem dono. É de todos, é do sonho do futebol.

, O Estadao de S.Paulo

21 de maio de 2009 | 00h00

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