O verdadeiro milagre

Como disse Ugo Giorgetti em sua coluna de domingo, é duro retornar ao futebol "normal". Sim, de certo modo, a disputa entre seleções é uma anormalidade do futebol. Fora uma ou outra maracutaia (pedidos de nacionalizações só para poder atuar por outro país), as seleções contam apenas com o material humano próprio. Anula-se, assim, o poder econômico desigual, que faz dos grandes clubes europeus verdadeiras multinacionais do futebol.

LUIZ ZANIN, O Estado de S.Paulo

09 de julho de 2013 | 02h05

A nós, tupis, nos devolvem os jogadores que atuam fora do país, nos quatro cantos do mundo, mas, em especial, nos milionários clubes europeus. Voltam a ser "nossos" por período determinado. Emprestados. Se formos pensar nos titulares que venceram a Espanha na Copa das Confederações, hoje apenas Fred continua no Brasil. Os outros já foram. Recentemente (Paulinho e Neymar) ou há muito tempo, a grande maioria. Alguns tiveram de ser apresentados quase de maneira formal ao público brasileiro, tão cedo haviam deixado o País. De qualquer forma, contamos com todos eles quando a seleção se forma. E apenas nessas ocasiões.

Bem diferente é voltar para a realidade do Campeonato Brasileiro, exatamente porque ele é enfraquecido, a cada ano, por esta evasão em massa. Êxodo, diga-se, longe de terminar, ao contrário do que pensavam alguns otimistas ao observar que a crise econômica europeia talvez não permitisse tantas importações. Engano. O mundo de fantasia do futebol não conhece crises, pelo menos não aquelas que afligem o comum mortal em seu dia a dia. Ele segue em frente, administra dívidas inadministráveis para entidades normais, e ignora tanto a micro quanto a macroeconomia, com dinheiro a rodo e de origem às vezes obscura.

Nesse retorno do Campeonato Brasileiro, talvez a maior novidade seja o Santos em sua nova fase. Já devidamente despojado do seu maior ídolo na era pós Pelé, e aproveitando a saída do craque, o clube faz uma limpa tanto na administração como no elenco. E lança, contra o São Paulo em crise, moleques que alguns visionários já sonham chamar de nova geração dos Meninos da Vila. Foram bem, derrotaram o Tricolor em casa por 2 a 0 e mostraram que podem ser, de fato, solução a médio prazo. Ainda mais se tiverem companhia de alguns experientes, como Montillo e, talvez, um (de novo) repatriado Robinho. Acompanhar a possível evolução de Giva, Neilton, Pedro Castro, Gustavo Henrique, Leandrinho e outros pode ser uma das diversões deste campeonato, que de fato apenas agora começa. Ainda ameaçado pela janela de transferências para o exterior, que não fechou. Mais desfalques podem vir por aí.

Um deles, quase certo, é Bernard, do Atlético-MG, clube que joga sua vida amanhã contra o Newell's Old Boys. Este é, de longe, o jogo mais importante do futebol nacional nesta semana. Com o Campeonato Brasileiro ainda morno, toda a atenção de quem gosta de futebol deverá estar voltada para o Estádio Independência, onde o Atlético tenta tirar a vantagem de dois gols dos argentinos e ir à final da Libertadores.

Há mais do que um sentido vulgarmente nacionalista em jogo: há a questão do futebol em si. Afinal, o Atlético-MG é o time que, atualmente, joga o melhor futebol no País. Bom, pelo menos era assim antes da parada para a Copa das Confederações. E deverá continuar assim nessa tentativa de reverter um resultado bem adverso. O Atlético terá de jogar com classe e alma para garantir a vaga. E também com paciência e prudência, porque se tomar gol será um desastre. Difícil? É mesmo, mas quem diz que é impossível?

O futebol brasileiro está longe de começar a resolver seus problemas. Continua interessante, apesar da pouca visão dos cartolas, da cobiça dos jogadores e respectivos estafes, do desinteresse da CBF, da soberba dos técnicos e da mídia. A simples existência do futebol brasileiro já é, em si, o verdadeiro milagre.

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