O vilão da hora

Milan e Real Madrid caem. Mas o único derrotado é Ronaldinho Gaúcho

, O Estadao de S.Paulo

13 de março de 2010 | 00h00

O mundo gira, gira, e a gente acaba por voltar a assuntos aparentemente superados. Milan e Real Madrid caíram na Copa dos Campeões, anteontem, e os desdobramentos desses episódios para seus dois principais astros brasileiros parecem seguir rumos distintos. Pelo menos no que se refere à seleção.

Para Ronaldinho Gaúcho, a surra do Milan diante do Manchester o deixou mais distante de um Mundial que já lhe soa inalcançável. Para Kaká, a queda do Real após empate com o Lyon em casa não passou de tropeço, em que a culpa foi generalizada. Agora, quem sabe?, até poderá preparar-se com mais calma para a aventura nacional na África. E cuidar de pubalgia que emperra seu desempenho.

Há dois pesos e duas medidas, no tratamento que dispensamos a ambos os astros, e me soam injustos. Ronaldinho se vê obrigado, a todo momento, a provar que não desaprendeu de jogar e que não destoaria no grupo de Dunga. O mesmo não se cobra de Thiago Silva, seu companheiro de time e nome certo para a Copa, ou de Kaká, ou ainda de Doni e Júlio Baptista, que na semana passada viram sua Roma ser eliminada da Copa Europa. O Gaúcho virou o vilão da hora. Já faz quatro anos.

SURRA NA PREPOTÊNCIA

Tive reações distintas com a derrocada das armadas italiana e espanhola. Fiquei chateado, porque se trata de equipes tradicionais, as duas maiores vencedoras do lindo troféu daquelas bandas. Sem contar que desfilam com mantos sagrados, com o perdão do clichê.

Por outro lado, admito, estive a ponto de soltar um "bem feito!", quando saíram de campo derrubados por ingleses e franceses. Epa! Vai que isso é alegria tosca de torcedor com dor-de-cotovelo, com inveja porque seu time, tadinho, bate cabeça num simples e macambúzio Campeonato Paulista.

Não era sentimento menor. Milan e Real são sinônimos de grandeza e têm história que merece respeito. Mas também difícil não associá-los a presunção e prepotência. Sobretudo nestes dias em que o dinheiro tenta conquistar tudo. Os milaneses se acostumaram, até pouco tempo atrás, a contar com a carteira generosa e interesseira do patrão Berlusconi. Faz uma década que os madrilenos contratam jogadores por valores indecentes.

Não estou a defender a filosofia do "bom e barato", expressão que cartolas sem horizontes cunharam por aqui. Grandes times precisam de ousadia e investimentos à altura. Tampouco prego a proibição de os clubes usarem seu cofre da forma como bem entenderem. Se tiverem lastro e se contarem com o aval dos sócios, que recorram às estratégias que lhes forem mais convenientes.

Mesmo assim, há o limite do bom senso. No Milan, a fonte só secou, por causa da crise financeira da Itália, hoje não mais o paraíso dos astros, ao contrário de duas décadas atrás. No Real, a megalomania de Florentino Perez se mantém irrefreável. O sujeito gastou em torno de R$ 700 milhões em um punhado de contratações, entre junho e agosto passados, e de novo não conseguiu construir um time. Repete fenômeno do começo dos anos 2000, com a primeira edição dos galácticos, que colecionavam estrelas - como Ronaldo, Zidane, Figo, Beckham - e resultados decepcionantes.

O Real escancara a lição do futebol: craques são fundamentais para criar um esquadrão, desde que formem um conjunto. Como o Real nos anos 50, o Santos nos anos 60, o Milan nos 90, o Barcelona na atualidade. Hoje, porém, o que existe em Madri é um grupo de qualidade que não dá um time e que nas últimas seis temporadas teve 6 treinadores. Por isso, não surpreende que pela terceira vez tenha caído diante de um Lyon ajustado, que compensou técnica inferior com eficiência coletiva. O dinheiro felizmente não compra espírito vencedor.

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