Divulgação/Cleveland Browns
Divulgação/Cleveland Browns

Obesidade é o maior adversário na aposentadoria dos jogadores da NFL

Incentivados por anos a ganhar massa para serem mais competitivos na liga, ex-atletas lutam contra o excesso de peso

Ken Belson/THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

30 Janeiro 2019 | 15h38

Uma epidemia insidiosa que não tem nada a ver com traumas na cabeça vem devastando os jogadores aposentados da NFL (Liga Nacional de Futebol Americano). Nas últimas décadas, a ênfase da Liga na proteção nas trocas de bola e dos quarterbacks levou as equipes a armarem suas linhas de defesa e ataque com homens acima dos 135 quilos. Mas a grande corpulência, incentivada pelos treinadores e que ajudou alguns jogadores a se tornarem multimilionários, condenou muitos a problemas de obesidade.

Na aposentadoria, esses homens não conseguem perder o peso que precisam para realizar suas atividades. Sem a estrutura de um time e a orientação de um técnico, pela primeira vez em décadas, muitos têm perdido a motivação para manter a forma ou nem mesmo tentam, uma vez que os danos causados aos seus pés, joelhos, costas e ombros limitam sua capacidade de se exercitar.

Esta é uma forte razão pela qual aqueles que jogam na defesa, comparados com outros jogadores e a população em geral, são mais afetados por problemas de hipertensão, obesidade e apneia do sono, com um cansaço crônico, uma dieta pobre e até a morte.

“Os jogadores da defesa são mais corpulentos e no mundo de hoje, errado ou certo, eles são incentivados a ganhar mais músculo”, disse Henry Buchwald, especialista em cirurgia bariátrica na Universidade de Minnesota que trabalha para a Living Heart Foundation, organização sem fins lucrativos que oferece exames médicos gratuitos para antigos jogadores da NFL. “Seus hábitos alimentares são difíceis de cortar quando eles deixam de jogar, e quando ficam obesos tendem a sofrer de diabetes, hipertensão e problemas cardíacos”.

Muitos jogadores dizem ter sido incentivados pelos seus treinadores, na escola secundária e na faculdade, a engordar para conseguirem uma bolsa e ser recrutados pela NFL, onde se exige que muitos jogadores sejam mais musculosos. Em alguns casos, de “tight ends” eles passam a atacantes e precisam de peso extra para jogar na nova posição.

Joe Thomas, que joga no Cleveland Browns, disse que, quando iniciou seus estudos na faculdade, comia quase o tempo todo para ganhar os 18 quilos que precisava para chegar a 131 quilos. Ele engolia hambúrgueres, pizzas e tomava muito sorvete de creme.

A Living Heart Foundation examinou milhares de ex-jogadores desde que foi criada em 2001 com apoio financeiro do sindicato dos jogadores da NFL. Dois terços dos jogadores examinados tinham um índice de massa corporal acima de 30, o que é considerado uma obesidade moderada. Um terço estava com mais de 35 ou considerados com obesidade significativa. O índice, que é uma indicação do peso em relação ao tamanho da pessoa, não leva em conta a massa muscular.

Os jogadores da primeira linha de defesa ficam mais gordos mais rapidamente. De 1942 a 2011 eles ganharam em média 900 gramas por ano, duas vezes o ganho médio de todos os jogadores da liga de futebol, segundo estudo publicado no The Journal of Strength and Conditioning Research.

Outro estudo mostrou que o peso médio dos atacantes aumentou 27%, de 108 quilos nos anos 1970, para 143,88 em 2000, à medida que o jogo evoluiu.

As consequências podem ser mortais. Segundo um estudo publicado no The American Journal of Medicine, a cada 4,5 quilos que os jogadores ganham, da escola secundária para a faculdade, ou da faculdade para o nível profissional, o risco de doenças cardíacas aumenta 14%, em comparação com jogadores cujo peso mudou pouco durante o mesmo período.

Muitos atletas que jogam na linha de defesa ou de ataque perderam peso. Antigos jogadores perderam vários quilos depois de se aposentarem e exibiram seu sucesso. Thomas, que se aposentou no ano passado depois de 11 temporadas jogando no Browns, engordou 13 quilos depois de entrar na NFL. Desde que se aposentou ele perdeu 22,6 quilos comendo menos e de maneira mais saudável. “Consegui reverter tudo o que estava fazendo”, disse Thomas. “Não tenho mais pizzas no freezer. Limitei os carboidratos, acrescentei grãos integrais, cuscuz, quinoa”.

Muitos jogadores afirmam ter despertado para os riscos da obesidade quando Reggie White morreu em 2004 de arritmia cardíaca. White também sofria de apneia de sono.

Os jogadores de linha de defesa ou ataque são dados a aflição, quando a respiração de uma pessoa repetidamente para e retoma porque os músculos do pescoço pressionam a passagem do ar quando elas dormem. Isto corta o fluxo de oxigênio e acorda o jogador, com frequência por um segundo ou dois. As contínuas interrupções do sono tornam difícil para as pessoas com apneia se sentirem plenamente descansadas.

Ex-jogadores de linha têm um grande pescoço e à medida que envelhecem o tecido da garganta fica flácido, de modo que sua língua pode bloquear as passagens de ar, disse Anthony Scianni, dentista do Center for Dental Sleep Medicine. A falta de oxigênio, disse ele, estimula o corpo a produzir mais açúcares, o que causa a diabete tipo 2 e leva a pessoa a comer em excesso e a ter outros problemas.

Derek Kennard, que atuou como ‘cão de guarda’ no Cardinals, The Saints and the Cowboys durante 11 temporadas, batalhou para reverter aquele ciclo. Ele roncava tão alto que seu colega de quarto na sua última temporada pediu para dormir num quarto separado. Depois de se aposentar em 1996, os anos de privação de sono acarretaram outros problemas. Ele comia mal e engordou 45 quilos. Tomava Vicodin para a dor causada pelas lesões da época em que jogava. A dor, a falta de sono e o peso extra o impediam de fazer exercícios. Seu colesterol e pressão sanguínea dispararam. Ele dormia ao volante quando parava nos semáforos.

Após a morte do seu irmão em 2009, Kennard resolveu buscar ajuda. Ele se submeteu a exames: no exame ele acordou 77 vezes a cada hora. Durante um minuto e 32 segundos deixou de respirar. E como se mexe na cama quando dorme, Kennard teve problemas para usar a máscara CPAP que fornece uma passagem de ar contínua e é o tratamento padrão para os casos de apneia do sono. Ele mudou para um bocal que mantém as vias aéreas abertas. Agora ele desperta apenas duas vezes por hora e dorme cerca de sete horas por noite. Seu peso caiu para 158 quilos e parou de tomar analgésicos.

Vaughn Parker, um tackle que jogou por 11 anos, a maior parte no Chargers, lutou contra a comida em excesso, e depois de várias cirurgias nos ombros, tornozelos e tríceps, praticou muito exercício para perder peso.

Sua vida também era agitada. Tinha investido no mercado imobiliário em San Diego quando o setor entrou em colapso em 2008. Estava com dois filhos quando se divorciou, e depois fez um curso de MBA, que concluiu em maio de 2017. Com o estresse passou a comer mais e, sem perceber, engordou 40 quilos, passando a pesar mais de 181 quilos. “Todo mundo tem sua cruz para carregar”, disse ele, hoje com 47 anos. “Para algumas pessoas o problema é o jogo ou o álcool. No meu caso é a comida.”

Em 2013 Parker recebeu um telefonema de Aaron Taylor, um ex-colega de time, que o incentivou a se exercitar com outros jogadores aposentados da NFL que podiam frequentar academias de ginástica gratuitamente por meio de um patrocínio do Trust, grupo fundado pela NFL e o sindicato dos jogadores para ajudar os aposentados.

Parker viajava 40 minutos de carro até Carlsbad, ao norte de San Diego, várias vezes por semana, para ir à academia Exos, onde um treinador adaptava os exercícios às suas capacidades e lesões. Depois, um grupo de ex-jogadores discutia seu progresso enquanto tomava uma bebida nutritiva. Lá eles aprendiam a controlar a quantidade do que comer e como comprar alimentos saudáveis.

Os exercícios eram exaustivos, mas ele se ateve ao programa, estimulado pela camaradagem dos colegas e conseguiu perder quase 45 quilos no primeiro ano. “Não havia um dia em que eu me sentava na beirada da cama e dizia ‘hoje não vou’”, disse ele.

 

 

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