Imagem Antero Greco
Colunista
Antero Greco
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Obrigado, capitão!

Não sei se alguma vez Hideraldo Luiz Bellini teve consciência do que representou o gesto de erguer sobre a cabeça a Jules Rimet, após a final da Copa de 1958. A atitude simples e espontânea teve significado que foi além da comemoração da primeira das cinco conquistas da seleção brasileira. O capitão levantava a autoestima nacional, cabisbaixa desde a derrota para o Uruguai, na maldita decisão de oito anos antes. Ele mostrava ao mundo que, enfim, uma grande escola era premiada, reconhecida, e fazia os adversários se dobrarem a seus pés.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

21 de março de 2014 | 02h05

Bellini foi o símbolo de uma nova era no futebol. O porte elegante, altivo, a panca de xerife revelavam que o Brasil não se conformava mais com o papel de coadjuvante no esporte que já domesticara como poucos. Dali em diante falaria grosso, ditaria moda. Também se consolidaria a imagem de grandeza, destreza e eficiência de nossos artistas. Começava ciclo de ouro.

O Brasil vivia mudanças internas importantes. Na política, terminava de maneira trágica a Era Vargas, com o suicídio do presidente em 1954. Juscelino Kubitschek construía Brasília e dava o pontapé inicial na indústria automobilística. Eram os tempos da Bossa Nova. A tevê engatinhava, com a criação da Tupi. O futebol revelava o gênio de Garrincha e a majestade de Pelé.

Por essas coincidências lindas do destino, coube a Bellini a honra de mostrar como o astral do povo se modificava. E, dentro de campo, com quanta dignidade e magia. Um time que tinha Gylmar, Djalma Santos, Nilton Santos, Didi, Zito, Garrincha, Vavá, Pelé, Zagallo, Pepe, dentre outros, era de se tirar o chapéu. Para acompanhar como uma sinfônica; solistas de primeira.

Pois os heróis aos poucos cumpriram tarefa por aqui e debandaram para outra dimensão. Turma tão afinada, que uma parte resolveu ir junta. Em poucos meses, foram bater bola nas nuvens Gylmar, De Sordi, Nilton Santos, Djalma Santos e agora Bellini.

Foram em paz. Obrigado, capitão Bellini. Eternamente. Comemore com seus amigos as alegrias que nos deram. Não se esqueçam da gente e, por favor, mostrem a anjos, arcanjos e querubins como já fomos bons de bola!

Vespeiro agitado. Paulo Nobre comprou briga ao negar-se a manter privilégios para determinados setores da torcida do Palmeiras na compra de ingressos. O dirigente resolveu investir no "Avanti", projeto moderno, lúcido e economicamente viável, que recorre à fidelização do público. O sujeito paga um tanto por mês e tem direito a adquirir bilhetes por preços reduzidos. É a tendência, no momento, para manter o caixa em relativo equilíbrio e colocar plateias razoáveis nos estádios.

Esse movimento simples mexeu com quem sempre se considerou diferente, especial, ou mais palestrino do que qualquer outro. Turma que tinha a carga de entradas que lhe conviesse, sem sacrifício e para azar dos demais. Danou-se! O cartola virou inimigo para certos segmentos, que, na falta de melhor argumento, apelam para a linguagem de que dispõem para persuasão: violência, força bruta.

Isso explica a atitude das pessoas que quebraram a sala reservada ao atendimento dos sócios "Avanti", na tarde de ontem. Não há acusação formal contra ninguém ou grupo. Apenas indícios, claro. O episódio revela quanto caminho há para percorrer para modificar o futebol no Brasil. Nobre atiçou vespeiro ao romper com prática distorcida, retrógrada, mas vista como normal por tanto ser aplicada. Por medo, por conveniência, por conivência.

O presidente apenas teve a coragem de mostrar um dos pontos que empacam o futebol, uma das válvulas por onde o lucro escorre pelo ladrão. O freguês, digamos assim, sem atendimento cortês, que se percebe prejudicado, se afasta e dá lugar aos aproveitadores, aos chupins desse meio. Só espero que não recue.

Os agressores, se forem identificados, não devem temer consequências. Basta alegar que agiram por amor excessivo. Serão inocentados.

Tudo o que sabemos sobre:
Antero Greco

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.