Obrigado, Guga

Derrota para francês encerra a carreira do maior astro da história do tênis brasileiro, aos 31 anos, sob aplausos do público em Roland Garros

Chiquinho Leite Moreira, PARIS, O Estadao de S.Paulo

26 de maio de 2008 | 00h00

"Obrigado Guga." O grito de um brasileiro, em meio a ambiente frenético na Philippe Chatrier já quase no fim do jogo de despedida, reflete não só o sentimento desse torcedor, mas de todo o mundo do tênis. Talvez pela primeira vez na história do Aberto da França um tenista derrotado tenha deixado a quadra com uma taça na mão (sem se tratar do vice-campeão). É o caso de Gustavo Kuerten, reverenciado com um troféu entregue pelo presidente da Federação Francesa de Tênis, Christian Bimes, com um ingrediente muito especial: o saibro de Roland Garros. Guga vai guardar uma boa recordação, apesar da esperada derrota para Paul Henri-Mathieu por 6/3, 6/4 e 6/2, em uma partida da qual saiu satisfeito e em que mostrou tênis capaz de, em alguns momentos, lembrar os bons tempos do tricampeonato de Paris. A emoção marcou a bela despedida de Guga. Ao entrar no palco que o consagrou, a quadra central Philippe Chatrier, com as cores do mesmo uniforme que usou na primeira conquista em 1997, o tenista deixou-se levar pelo clima contagiante em Paris. Chorou antes mesmo de o jogo começar. A expectativa era grande. Logo cedo, torcedores brasileiros passeavam pelas alamedas de Roland Garros esperando ver as últimas raquetadas do grande ídolo. Muitos pagaram caro pelos ingressos nas mãos de cambistas, mas todos os ingredientes do jogo fizeram valer cada centavo. Guga, em um francês que ele mesmo definiu como "terrível", não se esqueceu de todo apoio de torcedores de todos os cantos do planeta. "Roland Garros é minha vida, minha paixão, meu amor", disse. "Ganhei este torneio por três vezes, mas acho o amor de todos muito mais importante." A atmosfera na Philippe Chatrier contagiava. Enquanto o tenista era homenageado, o telão da quadra central mostrava momentos inesquecíveis da carreira dele, como o dia em que desenhou um coração na quadra e se deitou para comemorar o tricampeonato. Algumas cenas eram mais antigas, de onze anos atrás, quando derrotou o espanhol Sergi Bruguera para encantar o mundo com seu primeiro título em Paris, no nascimento de um dos mais queridos tenistas de todos os tempos. Seu carisma é tamanho que, mesmo com a evidente derrota, os gritos dos torcedores franceses estavam mais para o brasileiro do que para o francês Mathieu. E, por incrível que possa parecer, Guga fez uma das melhores exibições dos últimos dois anos. Jogou bem. Como ele mesmo disse, aplicou winners, deixadinhas, teve sques fortes (vários a mais de 200 km/h), cruzadas certeiras e disparou sua marca registrada, a paralela de esquerda. Por isso, apesar de todo o sucesso, da fama, do dinheiro e de uma brilhante carreira, admite que se despede com uma frustração. Não fosse o problema físico no quadril, poderia ainda, aos 31 anos, jogar de igual para igual com muitos dos líderes do ranking. Mas, diante de suas limitações, dá seu adeus e entra para a história, enquanto os torcedores agradecem mais uma vez: "Obrigado Guga."

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