Lucy Nicholson/Reuters
Lucy Nicholson/Reuters

Obstinado, Cielo quer o tri mundial

Em entrevista exclusiva, nadador brasileiro conta quais são seus projetos para o futuro

Paulo Favero, O Estado de S. Paulo

26 de fevereiro de 2013 | 08h00

SÃO PAULO - Dono de três medalhas olímpicas, nove pódios em Mundiais e recordista dos 50 m (20s91) e dos 100 m (46s91) no estilo livre, Cesar Cielo é considerado um dos principais atletas do Brasil na atualidade e grande aposta para 2016. Nesta entrevista exclusiva, o nadador de 26 anos conta sua história nas piscinas, fala do projeto social que ajuda a manter e revela os sonhos para o futuro.

ESTADÃO - Quando e por que você escolheu a natação como esporte?

CESAR CIELO - Eu já sabia nadar. Sempre acompanhava minha mãe às aulas de natação - ela era professora no Barbarense. Isso desde bem pequeno. E meu pai também queria que eu aprendesse a nadar para não se preocupar quando a gente saía de férias para a praia. Mas comecei a nadar como competição porque meus pais eram amigos do Mário - que atualmente trabalha nos Estados Unidos como técnico -, treinador do Barbarense na época, e ele achou que eu poderia entrar na equipe. Também tentei judô, mas a natação foi o que deu certo. Com 14 anos eu vi que poderia tirar um pouco mais da natação do que simplesmente só praticar o esporte. Ganhei uma bolsa de estudos em Piracicaba e percebi que poderia juntar o útil ao agradável. Não sabia ainda onde poderia chegar com relação ao meu nível na natação. Mas percebi que seria possível nadar, estudar e ver aonde isso iria dar.

ESTADÃO - Como o esporte fez parte de seu desenvolvimento?

CESAR CIELO - Posso dizer que minha vida inteira girou em torno disso, foi construída em torno do esporte. Ele sempre foi uma prioridade, desde mudar de país, mudar de cidade, tudo foi em cima da natação. As decisões que tomei foram as que eu achava que seriam as melhores para o esporte. A competitividade e os desafios que a natação me impunha acabaram sendo mais fortes até que a parte acadêmica, que a parte do desenvolvimento escolar, na minha vida.

ESTADÃO - Quais foram as maiores dificuldades ao se tornar um atleta?

CESAR CIELO - A busca por patrocínios. No meu caso, isso foi mais difícil no início; e depois, graças a Deus, nem foi tão complicado assim. E aprender a lidar com a rotina. Aprender que esse é o meu trabalho mesmo e que era preciso levar a sério. Não se tratava simplesmente de um hobby meu, era a parte mais importante da minha vida e ela tinha de rodar em torno disso aí.

ESTADÃO - Como é sua rotina de treinamento?

CESAR CIELO - Faço entre nove e dez sessões de treinos na água por semana, mais três sessões de musculação e mais uma ou duas de trabalho aeróbico. Em período de base rodo uns 50 quilômetros por semana, caindo para 30 ou 35 quilômetros semanais no meio da temporada, para chegar no período de competição um pouco mais leve.

ESTADÃO - Que conselhos você daria para as crianças que pretendem seguir seus passos?

CESAR CIELO - Acho que antes de qualquer coisa é fazer por vontade, porque gosta do que está fazendo. Nada do que é forçado dá certo. É achar alguma coisa que te motive a continuar fazendo aquilo, a ir todos os dias para a piscina, que é o mais importante. Depois, é fixar objetivos pessoais, que também sempre podem motivar. É essencial exigir um pouquinho mais de você para buscar a melhoria. E melhorar é sempre um fator de motivação. Então, acho que é isso: fazer porque gosta e buscar motivação para continuar a crescer.

ESTADÃO - Como é o projeto social que você ajuda a manter?

CESAR CIELO -O Novos Cielos é um projeto do Instituto Cesar Cielo que, atualmente, tem polos em três cidades - São Paulo, Limeira e Santa Bárbara D’Oeste. São Paulo está um pouquinho na frente porque conseguimos um investidor para esse ano. Basicamente é ajudar a oferecer estrutura para essa garotada mais jovem. Os atletas mais novos, que começam na natação, nem sempre têm apoio para viagens, competições e treinos. A proposta do Novos Cielos é bancar desde a estrutura, de cuidar da piscina, até o material físico e humano, de buscar professores para manter um nível de treinamento bacana. Sem contar a parte de competições, que é bancar algumas despesas com inscrições e viagens. Às vezes os locais são distantes e os nadadores não têm como bancar o deslocamento e a ida para a competição.

ESTADÃO - Qual é a sensação de poder contribuir para uma modalidade muito praticada no Brasil?

CESAR CIELO - Eu não penso se a modalidade é muito praticada ou qual vai ser o retorno para a modalidade em si. Na verdade, acho que o meu jeito de devolver um pouco do sucesso que obtive para a comunidade do esporte que eu pratico, que eu gosto e que eu escolhi, seria o projeto social. Tudo o que eu tenho na minha vida eu devo à natação, então acho que seria uma forma de ajudar um pouquinho, dando a chance para que outros possam conseguir também.

ESTADÃO - Para finalizar, quais são os seus sonhos e projetos para o futuro dentro das piscinas?

CESAR CIELO - Bom... Ganhar a Olimpíada de 2016 aqui no Brasil e continuar com o projeto social, com novos projetos que aparecerem ou que eu tiver ideia, e continuar trabalhando com a natação. Quando parar de nadar, acho que vou continuar, indiretamente, trabalhando com isso. Antes, claro, faz parte de um cronograma de provas importantes até 2016 disputar o Mundial de 2015 e o Mundial em Piscina Curta de 2014. Sonho também em ser o primeiro atleta a obter três títulos mundiais consecutivos em piscina longa, nos 50 m livre. Estou treinando para conseguir esse tricampeonato e talvez o bicampeonato dos 50 m borboleta. No Mundial de Esportes Aquáticos de Barcelona neste ano tem muita coisa em jogo para mim. Também quero continuar tendo motivação e dedicação para ser competitivo até 2016 para, quem sabe, chegar bem nos Jogos do Rio e ganhar a prova dos 50 m livre no Brasil.

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