Óculos e lentes de contato ainda são tabu no futebol

Vítimas de preconceito e preocupados com desvalorização no mercado, jogadores de futebol escondem deficiências visuais

GONÇALO JUNIOR, O ESTADO DE S. PAULO

04 de agosto de 2013 | 08h00

SÃO PAULO - Alex tem dificuldades para enxergar de longe e vê tudo meio embaçado. À noite, tudo fica ainda pior. Para corrigir o astigmatismo e a miopia de 1.75, o meia admite que joga com lentes de contato desde 2002 e, com elas, fez sucesso por onde passou, tem 406 gols na carreira e lidera o Coritiba, surpresa do Campeonato Brasileiro. Imagine se Alex não fosse míope...

A palavra “admite” não pode passar despercebida no parágrafo anterior. Embora os problemas de visão sejam comuns em jogadores de futebol, poucos reconhecem o uso de lentes. Óculos? Nem pensar. Alex é uma raridade por abordar o tema. “Sei de histórias de treinadores que proibiram jogadores de usar óculos dizendo que não ficava bem”, diz o craque de 35 anos.

Um goleiro experiente, que identificou sua miopia tardiamente, apenas em 2010, e hoje usa lentes de contato, driblou a reportagem do Estado. “Se eu admitir um problema desse, vou ter de encerrar minha carreira.”  O médico e comentarista Osmar de Oliveira acredita que essa é uma situação comum. “Se um dirigente souber que um atleta tem uma deficiência visual, dificilmente vai contratá-lo.”

Por causa dessa eventual desvalorização, jogadores escondem a deficiência visual. “Os jogadores precisam mostrar uma imagem de perfeição. Quanto mais perfeito, maior a valorização”, define o oftalmologista Celso Gonçalves, que examina jogadores com frequência. As limitações atingem cerca de 8% dos atletas, uma minoria que se esconde atrás das lentes. “Acho uma besteira o jogador esconder o problema. A medicina está avançada e isso pode ser corrigido facilmente”, diz Alex.

Kaká também joga no time dos míopes que saíram do armário. Desde a época do São Paulo, não escondia os óculos que corrigem dois graus de miopia. Hoje, usa lentes de contato. Comum. O Brasil tem 12 milhões de pessoas que usam alguma forma de correção visual e, desse universo, só dois milhões usam lentes de contato.

Esse cenário traz oportunidades de negócios para as empresas. Atenta, a Johnson&Johnson Vision Care reuniu especialistas e promoveu um seminário em São Paulo para discutir o tema “Visão e desempenho esportivo”. “Se levarmos em conta que cerca de 50% dos que usam óculos têm interesse em experimentar lentes de contato, existe uma grande oportunidade de expansão”, diz o gerente de marketing, Caio Vicentini. 

Só os grandes clubes brasileiros realizam exames oftalmológicos nos atletas. Aí, o problema não é o preconceito, mas a falta de informação. “Também falta valorizar mais o atleta”, critica Celso. O quadro mostra que uma norma publicada pela Fifa em 2010 recomendando o exame não saiu da gaveta.

O Santos é uma das exceções. Desde 2008, os atletas passam por uma bateria completa de exames. “O objetivo é verificar se existe alteração ou doença que possa interferir na performance do atleta”, explica o médico do clube, Rodrigo Zogaib. 

Por causa da negligência dos clubes, José Antonio Westphalen, oftalmologista do Atlético-PR, outro clube pioneiro na área, coletou casos interessantes. Um meia habilidoso, que passou pela equipe paranaense, tem visão monocular, ou seja, só enxerga com um olho. É congênito, não tem cura. Para não perder o talento, o treinador mudou a tática e pediu que um lateral se aproximasse, fazendo um escudo, protegendo seu lado cego. Deu certo.  O nome desse jogador – e também do goleiro – foram preservados por ética médica. Nesses casos, que envolvem preconceito, os oftalmologistas dizem que o milagre vale mais do que o nome do santo.

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