OIimpíadas

Gosto de olhar fotografias porque elas falam. Esta semana, uma foto publicada neste jornal é um exemplo disso. Tratava-se do desembarque da delegação brasileira de futebol que vai disputar a Olimpíada de Londres. Via-se, bem visível, Neymar, e atrás dele, já fora de foco, outros integrantes da delegação.

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2012 | 03h03

Não era, porém, a imagem de Neymar que me chamava mais a atenção. O notável era que, ladeando o craque, aliás um pouco à frente, havia dois soldados uniformizados, olhares atentos, carregando duas ameaçadoras e enormes metralhadoras, ou talvez fosse uma nova arma mais letal ainda e que eu desconheço. Era uma foto de dar medo. Assim são os Jogos Olímpicos agora, com o exército, polícias especiais, empresas de seguranças contratadas, o diabo. O número de pessoas empregadas na segurança, acredito, não é menor que o número de atletas disputando medalhas.

Alguns me dirão que sempre foi assim. Me lembrarão que a Olimpíada de 1936, quando os atletas eram todos amadores, ou quase, foi aberta solenemente por um amável e sorridente Adolf Hitler. Os jogos transcorriam enquanto ele armava sorrateiramente, ou nem tanto, seus exércitos para apenas três anos depois desencadear o que se chamou de Segunda Guerra Mundial.

Hoje, tantos anos passados, sinto no mundo o mesmo mal-estar que, estou seguro, havia em 1936. Um mal-estar indefinível, um sentimento incômodo, difuso, de que há algo grave em preparação. São sentimentos que geralmente, prenunciam uma guerra. Não estou dizendo que vai haver guerra. Até porque já há guerras. Estou apenas me referindo à semelhança psicológica que, às vezes, apresentam momentos históricos separados no tempo.

O fato é que, apesar de passado o pesadelo da guerra, a Olimpíada continuou sendo caixa de ressonância de tudo o que acontecia na política. A Guerra Fria entre EUA e URSS presidiu a todas as olimpíadas até a queda do regime russo. As medalhas eram conquistadas como se fossem batalhas ganhas e as olimpíadas foram contaminadas por desistências, recusa de participação, protestos e demais manifestações belicosas.

De qualquer forma, as coisas ficaram sob controle e os Jogos acabavam sem problemas. Isso aconteceu até a Olimpíada de 1968 no México que, embora espelhasse claramente o que acontecia no mundo naquele ano mítico, se limitou a protestos dos Panteras Negras e algumas defecções de cubanos. Tudo ainda dentro da normalidade.

O horror definitivo se instalou em 1972, com o atentado aos atletas israelenses que terminou em morte e desolação. E a segurança fez sua entrada triunfal nos Jogos Olímpicos. Agora chega essa de Londres, onde, como em 1936, vamos fingir que tudo anda bem no mundo, que os povos são irmãos e que a intenção de aproximar as pessoas ainda é levada a sério e funciona perfeitamente. Pena que, de repente, apareça uma foto de jornal que nos revele a realidade.

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