Ok, vou revelar a bronca com bibelôs

Há um mês escrevi neste espaço sobre o que chamo de "praga do bibelô", que nada mais é do que o excesso de paparicação sobre os jogadores de futebol dos grandes clubes. De lá para cá, recebi centenas de mensagens de leitores ávidos por se posicionarem a respeito do tema. Curiosamente, nenhuma delas - zero mesmo, o que é inédito - discordou de minhas críticas. Percebi, no entanto, uma grande curiosidade em saber como e de onde surgiu essa minha "bronca"" (palavra dos leitores) em relação aos boleiros. Pois bem, vou contar!

Wagner Vilaron, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2011 | 00h00

Em dezembro de 2002, poucos dias depois de Palmeiras e Botafogo terem sido rebaixados para a Série B do Campeonato Brasileiro e ainda com seus torcedores em estado de choque, ouvi duas frases, ambas ditas por jogadores que fizeram parte daquele momento (um do Palmeiras, outro do Botafogo), que, reconheço, chocaram e deixaram este jornalista indignado. "Meu irmão, quem cai é o clube. Ano que vem troco de time e permaneço na Primeira Divisão" foi a primeira. "A única coisa que me preocupa é os caras (dirigentes) dizerem que vão atrasar o salário porque a grana (cota) da TV é menor" foi a segunda.

E antes que alguém venha com aquela tradicional argumentação de que não devemos generalizar por causa de duas frases, digo logo que não se trata de generalização. No entanto, ao mesmo tempo que não podemos ser maldosos e achar que tais raciocínios resumem o pensamento de toda a classe dos atletas profissionais, também não podemos ser ingênuos e imaginar que apenas os dois infelizes com os quais conversei pensam desta forma.

Mas o que mais irrita no comportamento dos boleiros - quer dizer, bibelôs - não é a falta de profissionalismo ou de comprometimento com a história do clube ou com o sentimento do torcedor. O que incomoda para valer é constatar a maneira com a qual eles manipulam aquilo que a torcida tem de mais sagrado: a paixão pelo clube e a devoção pelo ídolo.

Não tenho ídolos na vida pelo simples fato de não aceitar a idolatria ao ser humano (projeto que ainda considero em estado de aperfeiçoamento). Existem apenas pessoas que admiro. Mas reconheço que essa tal idolatria existe. E a tendência daqueles que idolatram é sempre ver o lado positivo de seus ídolos. A paciência e a tolerância com aqueles que são colocados em pedestais é quase inesgotável. E essa certeza de que contarão com essa boa vontade faz com que muitos bibelôs usem e abusem, pois sabem que um gol, sobretudo se for seguido por um beijo no escudo do clube, é capaz de verdadeiros milagres.

A solução para este problema parece fácil. Seria necessário que os jogadores, de maneira geral, demonstrassem mais respeito pela camisa que defendem e consideração por aqueles que os admiram. Por sua vez, os torcedores teriam de ser menos passionais no momento de analisar o comportamento de seus ídolos... Ou seja, pensando bem é melhor deixar tudo isso pra lá!

TROCA DE PASSES

"Caro jornalista. No fundo, vocês da imprensa têm pura inveja dos jogadores e técnicos de grandes clubes de futebol. Isso porque vocês, intelectuais e estudados, nunca vão ganhar na vida o que os grandes jogadores ganham em um ano de salário. É pura frustração"

MANFRED MEDEIROS

POÁ-SP

Nota da coluna: Caro Manfred, discordo totalmente de você. Um ano? O correto seria um mês!

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