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Olheiros

Hoje tudo está conectado. As distâncias não existem mais e, graças às novas tecnologias, podemos obter informações seguras com a máxima rapidez e fidelidade. Ou isso não é absolutamente verdade, ou as pessoas responsáveis pelas contratações na maioria dos clubes brasileiros são completamente incompetentes e não enxergam um palmo à frente do nariz.

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2014 | 02h02

Tornaram-se comuns contratações feitas com grande espalhafato que se tornam rapidamente fiascos incomensuráveis e, o que é pior, repassados a um outro clube que, por suas vez, se dispõe a acreditar na sorte e no milagre. Por que acreditam? Será que ainda examinam tapes e vídeos com jogadas cuidadosamente escolhidas de um jogador? É um processo velho e ultrapassado que, acho, saiu de moda faz tempo. Até os mais incautos sabem o que se pode fazer hoje em termos de efeitos visuais criados por técnicos em montagem e finalização de imagens.

É possível criar uma imagem em que as pernas em movimento sejam de um jogador, o corpo de outro jogador e o rosto de um terceiro para criar uma espécie de monstro, um Frankenstein correndo pelo campo, feito de várias partes escrupulosamente justapostas. É um tipo de efeito hoje em dia banal, corriqueiro, usado à exaustão pelos comerciais de televisão e por tipos específicos de longa metragens.

A computação gráfica veio revolucionar a maneira como imagens passaram a ser apresentadas. Exagerei um pouco nesse exemplo, mas foi para tentar mostrar que não se deve acreditar mais em imagens, não se deve mais tomá-las como documento nem como prova da habilidade ou valor de qualquer jogador. Então, acreditam em quê?

Como são feitas as contratações nos clubes? Serão essas péssimas contratações obra de verdadeiros fenômenos na arte de vender? Haverá vendedores excepcionais que convencem os diretores e as comissões técnicas dos clubes no papo e na malandragem? Haverá, como muita gente suspeita, corrupção com quantias que vão daqui para ali nas sombras e transformam o branco no preto e vice versa? Será tudo isso junto? Ou apenas comodismo, preguiça de gente que devia estar viajando para lugares distantes enfrentando frio e línguas que não conhecem bem para contratar um jogador?

Essa devia ser a atitude de alguém responsável por contratação. Pegar a malinha e sair por aí observando, olhando e fazendo longas pesquisas. Não tenho noticia de ninguém que faça isso. Antigamente havia pessoas que se encarregavam dessa atarefa. Eram chamados de olheiros. Aquele que olha, que observa. Só essa classificação já indicava que ia a qualquer lugar várias vezes, observava e trazia informações confiáveis. Não só quanto à qualidade do jogador, mas quanto à conduta, ao caráter, à maneira de se conduzir, etc.

Esses antigos olheiros eram, na verdade, torcedores dos clubes. Faziam o trabalho por amor e pouco ganhavam, a não ser a satisfação de ter descoberto um craque. Esse tipo de gente desapareceu. No seu lugar ficaram os "profissionais".

Quem são exatamente esses profissionais não sei. A única coisa que sei é que em geral trabalham muito mal, porque vejo jogadores contratados por muito dinheiro e depois empurrados pra cá e pra lá no desespero de evitar prejuízos. Os clubes, quase sem exceção, fazem contratações erradas que podiam ser evitadas com algum cuidado e trabalho. Principalmente trabalho sério.

Os erros, no entanto, diferem quanto às consequências. Em muitos casos acabam absorvidos, são jogados para baixo do tapete e a torcida e imprensa acabam por esquecê-los. São apenas colocados na coluna dos prejuízos e a vida segue. Alguns clubes podem se dar ao luxo de perder sem enormes problemas imediatos. Outros, porém, vão se atolando nos erros, um depois do outro, e terminam pagando por isso no curto prazo. É só olhar a classificação.

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