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Olho nele, Dunga!

Ouvia pelo rádio do carro as novidades da seleção brasileira convocada por Dunga. Andava lentamente como todo paulistano, parando aqui e ali em mini engarrafamentos que, somados, formam um belo engarrafamento. A vantagem é que podia ouvir mais atentamente os nomes convocados. Bom, não vou repetir o que disse gente mais capaz e que vive com mais inteligência o futebol brasileiro. Foi, para alguns, uma decepção, para outros, mais céticos, uma confirmação do que nos esperava quando Dunga assumisse.

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

24 Agosto 2014 | 02h03

Um misto do já visto com um inteiramente e ameaçador desconhecido. Estava nesse estado de espírito que toma conta de todos quando passa pela mente a seleção brasileira de futebol quando vejo um pouco ao longe, andando pela calçada, algo que me pareceu uma autêntica miragem.

A loucura dessa cidade é bem propícia a miragens e alucinações de toda espécie, principalmente quando estamos dentro de um carro. O fato é que, para minha estupefação, vi uma figura trajando camisa amarela com arremates verdes nas mangas. Primeiro esfreguei os olhos: estaria realmente vendo alguém com a camisa da seleção, a popular amarelinha como quer Zagallo?

Sim, era mesmo a seleção. Rezei para o trânsito ficar mais lento ainda, se isso fosse possível, pois a figura caminhava em minha direção e, consequentemente, ao passar por mim, o veria com toda a clareza. Desde um certo momento da final da Copa do Mundo, não via mais a camisa da seleção. A multidão de amarelo sumiu gradativa, porém firmemente, a começar pelo jogo contra o Chile, sumiu mais ainda depois do jogo com a Colômbia e desapareceu completamente depois daquele jogo que ficou na cabeça até de um modesto funcionário do Ministério das Relações Exteriores de Israel.

O amarelo sumiu das nossas ruas. E eis que reaparecia justamente no momento em que Dunga anunciava seu "novo" time. Seria algum misterioso fã de Dunga, alguém incuravelmente otimista, daqueles que acreditam que o futuro sempre será melhor? Ou seria, por razões inexplicáveis, um fã de algum jogador convocado? Difícil dizer.

A figura começou a se materializar mais nitidamente e vi que era um rapaz, um garoto de menos de 20 anos, de aparência não muito notável. Um garoto comum, um torcedor comum. O trânsito, como era de esperar, parou completamente e pude então observá-lo com toda a atenção. A camisa que o garoto vestia era realmente da seleção brasileira, com distintivo e tudo. Só que dentro do distintivo, em vez de CBF, estava bordado um nome: Allejo. Pensei ter lido mal. Allejo? Quem é Allejo?

Como estamos no reino dos jogadores desconhecidos que aparecem não se sabe de onde, não ficaria tão surpreso se tivesse me escapado um Allejo entre os convocados por Dunga. Vi o rapaz se afastando. Nas costas, de novo o mesmo nome: Allejo. Com esse nome ainda na cabeça, comentei a visão com um amigo bem mais jovem que, entre risadas, me aconselhou a "dar um Google".

Foi lá, na internet, que descobri que Allejo é realmente um jogador de futebol brasileiro, já com seus 35 anos, extraordinariamente famoso pela qualidade de seu futebol, comparado a Pelé e, muitas vezes, tido como superior a Pelé. Tem até comunidades de admiradores nas redes sociais e, aparentemente, só eu não o conhecia. O dado mais interessante sobre Allejo é que não é um jogador real, de verdade, mas personagem de um vídeo game muito difundido a partir dos anos 90 do século passado, o Super Nintendo.

A seleção brasileira a que o garoto heroicamente oferecia a admiração pública não era a nossa pobre seleção de carne e osso. Era uma seleção virtual, irreal, inventada, portanto, muito melhor do que a nossa. Fiquei pensando então se aquele garoto com aquela camisa não estava realmente fazendo uma sutil, mas poderosa, crítica ao que está aí. Se o que temos é isso, melhor então ficar com o Allejo. Olho nele, Dunga!

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