Onde a guerra do Vietnã não acaba

Conta-se que um dia, no começo dos anos 70, o atacante argentino Bambino Veira, antes de começar uma partida importante, daquelas que decidem tudo, aproximou-se de dois adversários, ambos meio-campistas, Aguirre Suarez e Montero Castillo, para trocar saudações de praxe. Antes que pudesse proferir qualquer palavra, Aguirre Suarez lhe deu um toque que o Bambino lembra até hoje: "Olha aqui, trata de andar por qualquer parte do campo, mas pelo meio não venha: porque no meio é o Vietnã". É uma daquelas frases de boleiros definitivas, que resumem uma complexa situação em poucas palavras e de forma absolutamente clara, com o vigor e a riqueza necessários. É uma frase que, por outro lado, demonstra a excepcional importância que os argentinos dão ao meio- campo, la media cancha, o setor sagrado onde se resolvem todas as partidas. O Bambino foi avisado que por aquele lugar, para conquistá-lo e se fixar nele, haveria batalha, guerra, combate corpo a corpo e que sua vida seria dura, se resolvesse enfrentar aquele verdadeiro Vietnã. A guerra do Vietnã acabou faz muitos anos, o futebol mudou muito, mas os argentinos continuam acreditando que o meio do campo é o setor estratégico por excelência, que não se deve perdê-lo de maneira alguma, e é lá que posicionam seus melhores homens, os mais dotados, os grandes, os que fazem diferença nas batalhas. Os que sabem que têm o poder de ganhar a guerra com sua simples presença. Desde que me conheço por gente me deparo com essa tradição de grandes e mitológicos meio-campistas argentinos, de Nestor Rossi dos anos 50, passando por Rattin, chegando a Madurga, Ardilles, Redondo e outros que não me lembro.Quarta-feira um legítimo representante dessa longa trajetória desfilou seu futebol pelo Mineirão: Juan Sebastián Verón. Mais que o futebol desfilou sua personalidade e seu caráter. Verón é um veterano e está longe de seus melhores dias. Joga só com a alma. Nada o abala, nem torcida, nem placar adverso e parece saber que pode mudar o jogo a qualquer momento. E o jogo muda a partir daquela região que os argentinos consideram vital: o meio-campo.Nunca ficou tão clara a diferença que faz ter um jogador desse nível. Quando o Estudiantes tomou o gol, nada aconteceu, Verón ali estava para tranquilizar a todos e impor-se, só com sua presença inabalável. Quando, por sua vez, o Cruzeiro tomou o empate, não havia ninguém para ajeitar as coisas, Verón estava do outro lado, e todo o time desabou. Nós precisamos aprender que marcar não é tomar conta do meio-campo. Disposição não é suficiente. É preciso que quem jogue nesse setor tenha outras qualidades, além de físico e correria. Os treinadores das equipes de base deveriam estar atentos a outros sinais, principalmente a capacidade de liderança, a dosagem certa de serenidade e garra. Já tivemos isso no passado e muito. Agora está raro, quase inexistente. Na Argentina também. Não creio que estejam aparecendo muitos Veróns por lá.Esse que ainda está por aí, de qualquer maneira, é um dos grandes sobreviventes da escola argentina. Posso jurar que antes do início do jogo, com toda a tensão, o estádio cheio, ao ser cumprimentado pelos cruzeirenses, passou pela sua cabeça avisar: "Mirá, andá por qualquier lado de la cancha, pero por el medio no vengas.... porque eso es Vietnã".

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