Imagem Antero Greco
Colunista
Antero Greco
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Onde está o Mundial?

Gosto de efemérides e datas singulares. Todo dia confiro as seções de jornais que contam o que aconteceu na história há 50, 100 anos ou mais. Passeio pelos sites para conferir que personalidade nasceu ou morreu no dia tal, qual batalha importante ocorreu, o que se passou nas artes, no esporte.

ANTERO GRECO, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2013 | 02h01

Por falar nisso, e não é que a folhinha indica que hoje estamos a 365 dias do pontapé inicial do Mundial? Já parou para pensar na responsabilidade de o país ser anfitrião de um dos maiores eventos da terra? Numa quinta-feira de outono, às 5 da tarde, a seleção enfrentará o rival por ora conhecido só pela sigla de A2, no moderno Itaquerão, oficialmente designado por Arena São Paulo. Estaremos com atenção voltada para lá.

Um ano antes da abertura, o que temos de fato que nos remeta à Copa? A rigor, obras dos estádios, ou as arenas, como se diz agora. Vários campos de futebol (denominação tradicional) são erguidos, um ou outro reformado e adequado às exigências da Fifa. E sobretudo bilhões de reais despejados nos palcos, a maioria dos quais com orçamentos iniciais superados há tempos. Diversas as canchas com futuro incerto após a meia dúzia de jogos que receberão num período excepcional. Candidatas a elefantes brancos não faltam.

Tribunas mais cômodas e práticas para os usuários são bem-vindas. Só alguém muito tonto para preferir a penúria de arquibancadas carcomidas a confortáveis cadeiras. A gente gosta de ser bem tratado. Talvez o legado maior da dinheirama esparramada para o Mundial esteja mesmo nos templos novos da bola. Desde que nenhum apresente prematuramente problemas de estrutura como o Engenhão. (Aqui cabem os parêntesis: uma indecência a falha que levou à interdição da maior construção para o Pan de 2007. Se houver um pingo de seriedade das autoridades, o episódio tem de apontar responsáveis, com os devidos processos.)

Estádios cheirando a tinta e cimento frescos são suficientes para marcar um campeonato de tamanha envergadura? Não. A Copa deveria ser oportunidade extraordinária para arejar também a gestão do futebol brasileiro, para trazer olhar ousado na forma de tratar produto cultural e econômico rico, com potencial de expansão gigantesco. O Mundial seria ocasião única para colocar em xeque o perfil do dirigente local e respectivos métodos de atuação. E também fonte de estímulo para transformações dentro de campo.

A Copa poderia desencadear uma revolução nos transportes e segurança. No entanto, os projetos de mobilidade urbana elaborados para as 12 sedes ou não saem do papel, ou saem de jeito tímido ou não passam de guaribadas pontuais. Proveitos reais? Um aqui, outro ali. A população não tem o sentimento de progresso por causa da competição, mesmo que logo mais seja envolvida em clima de exultação patriótica. Nem a seleção tem jogado bem...

Paira no ar a fumaça da indefinição - ou melhor, da certeza de que os avanços serão modestos. Repare como se limitam a vozes isoladas as das pessoas que pedem transparência nos gastos, em especial públicos. Quem lembra, hoje, da promessa do autoexilado ex-presidente da CBF, ao garantir, lá atrás, que em 2014 veríamos uma Copa financiada essencialmente pela iniciativa privada? Conversa fiada pra boi dormir.

Quem comanda os preparativos? Um político de escola ufanista e estacionada nos anos 1970 que carrega a tiracolo pra todo canto seu pupilo e ungido para a sucessão. Um ministro que exalta as benesses do Mundial e não faz as cobranças que a sociedade exige. Um ex-atleta que acumula cargos de integrante do Comitê Organizador, garoto-propaganda, empresário e comentarista. E um francês que dá pitacos como se aqui fosse a casa da sogra.

Cobrar o que da cartolagem, se a Câmara Municipal de São Paulo concede o título de cidadão paulistano a Joseph Blatter? O presidente da Fifa nem se deu o trabalho de vir para a cerimônia. Deve ter falado para Jerôme Valcke: "Vai lá. Me ajuda nessa."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.