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Onde estão eles?

O Brasil está sendo esvaziado de seus jogadores. Garotos, quase crianças, estão sendo levados por empresários para crescerem e se tornarem grandes jogadores em times europeus. Há uma verdadeira caça a jovens craques pelo Brasil inteiro, e clubes estrangeiros estão cada vez mais fortes às custas dos nossos talentos.

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2015 | 03h41

Isso é o que, em geral, se fala. Eu mesmo muitas vezes já embarquei nessa canoa. Não gosto muito da ação de empresários, porém - e como dizia Plínio Marcos - há sempre um porém, acho que chegou a hora de pensar melhor. A primeira pergunta que faço é a seguinte: onde estão esses jogadores roubados ao Brasil? Onde, em quais clubes jogam essas pedras preciosas que nos foram raptadas? Eu não conheço nenhum.

Faz tempo que o êxodo se dá, desde pelo menos os fins do século passado. Tempo suficiente para que as crianças tenham se tornado homens. E tivessem se transformado em grandes jogadores. Tempo mais do que suficiente para que, por meio das televisões que hoje transmitem tudo, de todas as partes do mundo, já conhecêssemos intimamente essa nova geração de grandes craques brasileiros. Onde estão? Estou falando naturalmente de craques, não de jogadores bonzinhos, jogadorezinhos mais ou menos, como os que ultimamente infestam a seleção brasileira, como os que disputaram o ultimo Mundial urrando o hino nacional. Craque é outra coisa, e isso não há. Como comparação, há o Neymar.

Vamos colocar a bola no chão, "la pelota en el suelo, por favor". Neymar é um craque, mas quantos tivemos como ele no passado? Vários, para não dizer inúmeros. E todos mais ou menos ao mesmo tempo. Não um hoje, outro daqui a anos. Não, juntos. Hoje temos ele, que por isso, pelo seu esplêndido isolamento, parece muito maior do que é. Mas temos ele, é craque, serve de comparação. Quem mais? Quem mais os malvados empresários levaram, levam ou pensam em levar daqui? Não conheço nenhum.

Será que não é hora de concluir que não estamos mais revelando ninguém? Que, por um fenômeno difícil de explicar, o futebol se tornou coisa rara no país do futebol?

Terminou faz pouco o Campeonato Paulista. Alguém é capaz de lembrar de algum jogador do Interior que um dia poderia almejar ser chamado de craque? Onde está o novo Sócrates, o novo Edílson, Careca... E mais, paulistas que somos, olhamos em geral para o que está perto. Que tal olhar mais longe? O Rio, por exemplo.

Se há lugar acostumado a revelar craques é o Rio: Flamengo, Fluminense, Vasco e Botafogo, em especial o primeiro e o último desta lista, cansaram de dar craques ao Brasil. Não vou citar nomes que todo mundo sabe. Há algum nesse Botafogo que disputa a Série B, ou nesse Flamengo que começa titubeante o Brasileiro? Faz tempo que só produzimos miragens enganadoras.

O Internacional é um exemplo. Sempre nos deu grandes jogadores formados lá mesmo. Há poucos anos formou um time de garotos que encheu os olhos. Talvez fosse apenas uma miragem, porque não sei o que virou deles. Talvez tenha sobrado Nilmar, o que, convenhamos, é muito pouco. Nós nos agarramos a esperanças, a promessas que não se cumprem.

Até o Santos pode servir de exemplo. Daquele time incensado , o time de Neymar, quem realmente passou de promessa a realidade? Neymar, só. Podemos colocar a culpa nos empresários, em dirigentes, na CBF, mas a verdade é que não sabemos o que aconteceu. Paramos de jogar bola. Essa é a verdade.

Jogadores que em outras épocas seriam rapidamente esquecidos, hoje não saem da imprensa e todos se preocupam se vai jogar ou não. Jogadores que dão um passe vulgar e comum nos tempos de Dicá ou Zenon, hoje são levados a sério. Nunca pensei que fosse inocentar empresários, mas acho que chegou o dia de pensar um pouco. Os empresários levam, sim. Mas quem?

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