ONU vê no futebol a saída para refugiados

Entidade promove esporte e envia bolas a países em crise humanitária

Jamil Chade, O Estadao de S.Paulo

03 de fevereiro de 2008 | 00h00

Em crise com seus mais de 33 milhões de refugiados em campos no deserto, em selvas e em lugares críticos, a ONU (Organização das Nações Unidas) decidiu usar o futebol - em especial o brasileiro - para tentar dar novo sentido à vida de pessoas que, em alguns casos, passam anos fugindo de guerras e da violência, morando em barracas. Em cooperação com uma multinacional, a entidade começou a enviar bolas verde-amarelas para crianças refugiadas ao redor do planeta. "As cores não foram escolhidas por acaso" , afirmou ao Estado o ex-presidente de Portugal Antônio Gutierrez, alto comissário das Nações Unidas. Segundo ele, a ONU percebeu que o Brasil desperta sentimentos positivos nas crianças, mesmo nos recantos mais longínquos. "É quase um tratamento psicológico para aqueles que viram seus parentes serem assassinados." As bolas estão sendo enviadas a locais que passam por crises humanitárias, como Iraque, Afeganistão, Congo, Sudão, Quênia e Sérvia. "O futebol, principalmente o brasileiro, é muito poderoso. Vemos claramente a transformação quando uma criança ganha uma bola de presente", disse Gutierrez. Diante do impacto do futebol, promover a modalidade, mesmo em condições precárias, se tornou uma das prioridades das Nações Unidas. EXPERIÊNCIAPara as populações que vivem em situações críticas, a influência positiva do futebol não é nova. O caso mais exemplar é o de Antônio Rio Mavuba, que nasceu em 1984, dentro de uma barca, em pleno Oceano Atlântico. Seus pais haviam fugido da guerra em Angola e tentavam entrar ilegalmente na Europa. Felizmente, a família conseguiu receber a cidadania francesa e, hoje, Mavuba é meio-campo do Lille e chegou a ser convocado para a seleção francesa. Mas o fato de não ter tido desde o início um passaporte francês dificultou bastante a carreira do atleta. "Nasci apátrida", contou Mavuba.O jeito para futebol já estava em seu sangue. O pai dele havia atuado na antiga seleção do Zaire (hoje Congo) e participou da Copa do Mundo da Alemanha, em 1974. O futebol também transformou a vida de Serge Abanda, que conseguiu escapar de uma situação de violência em Camarões há dois anos e hoje vive na Eslovênia. "Encontrei a paz, e o futebol foi meu passaporte para isso", diz o jogador do clube Domzale. Mas nem sempre levar o esporte a zonas em crise é algo fácil. No norte do Quênia, por exemplo, o obstáculo foi a tradição religiosa. A ONU teve de insistir para conseguir que os pais de jovens sudanesas permitissem a prática da modalidade. A entidade, no entanto, não desiste do projeto e tem bons resultados. É o caso do time criado na Hungria, conhecido como African Stars, no qual jogam refugiados africanos.

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