Orelhas quentes

Um punhado de técnicos de ponta estará à beira do gramado, neste final de semana, com cabeça e orelhas quentes. Uns estarão a perguntar-se por que seus destinos não tomaram determinado rumo. Outros sentarão no banco de reservas com receio de que o futuro imediato lhes reserve carta de demissão.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2010 | 00h00

Um dos mais atordoados deve ser Muricy Ramalho. Até um tempo atrás, estava no desvio, depois de sair desgastado do São Paulo e de não emplacar no Palmeiras. O Fluminense lhe acenou com a possibilidade de voltar à cena. O início não foi entusiasmante, mas na moita, sem alarde, ajustou o time e hoje topa com o Botafogo na condição de líder.

O bom trabalho, aliado a currículo de respeito, lhe valeu na sexta-feira convite para assumir a seleção. Em geral, é o topo da carreira, emprego que todo treinador deseja, independentemente das rugas a mais e dos fios de cabelos a menos. O sonho emperrou no momento em que o clube bateu pé e disse não. Muricy deve achar que perdeu o bonde da história passou e ele não subiu.

Mano Menezes é outro que talvez esteja com caraminholas a incomodá-lo. Durante a semana não se falou de outra coisa a não ser da iminente promoção a substituto de seu conterrâneo Dunga no comando da amarelinha. Não teve um meio de comunicação que não o apontasse como favorito ao cargo. De uma hora para outra, na sexta-feira vê na televisão o colega Muricy ao lado de Ricardo Teixeira. Imagino o susto que levou e a baita frustração que sentiu. Susto que se tornou maior ao ser convocado, no início da noite, para pegar o emprego que Muricy havia rejeitado pouco antes. Aceitou o desafio, se despede do Corinthians, mas será que não lhe vem a dúvida: "Ficarei mesmo até 2014?" Sei não.

Luxemburgo não fica atrás em ansiedade e expectativa, pois também se cogitou seu nome. Voltar à seleção seria o máximo para afagar o ego de quem foi defenestrado, no começo dos anos 2000, em meio a resultados oscilantes e vida privada vasculhada. Levantaria a moral de um técnico que nas últimas temporadas busca retomar a rota das conquistas, mas que enfrenta dificuldades com um Atlético-MG inseguro. O melhor a fazer é concentrar-se no clube e recuperar a fama de vencedor.

Imagino Felipão mais aliviado com o rumo que tomou a prosa da seleção. O campeão mundial chutou o balde, no meio da semana, ao garantir que ninguém da CBF o havia procurado para coisa alguma. O gaúcho subiu nas tamancas com a história de que perdeu terreno por não abrir mão do Palmeiras. Ora, agiu bem: como dizer "topo" para algo que não existiu? Macaco velho, sabe que entraria em fria se se oferecesse. Gelada parece ser a tarefa de ajustar time mais instável do que tempo na Inglaterra. O desafio hoje é o embalado Ceará, em Fortaleza. De qualquer forma, tem a vida feita e prestígio com os fãs.

Dois jovens técnicos sentem o banco esquentar, e não será por causa da temperatura sempre agradável na Baixada. O santista Dorival Júnior e o são-paulino Ricardo Gomes nos últimos dias tiveram poucos motivos para dormir tranquilos. O primeiro vê esfacelar-se um belo projeto de time, já que o Santos dá sinais de que pode virar o fio ? o que seria uma pena. O segundo está pela bola sete, para ficar em linguagem que o futebol importou da sinuca. Sua cabeça está a prêmio no Morumbi ? os cartolas negam com veemência nada convincente.

Situação idêntica envolve Silas. No ano passado, ganhou projeção ao guiar o Avaí numa arrancada deliciosa no Brasileiro. A campanha com time modesto lhe abriu as portas do Grêmio. A temporada vai pelo meio e o que mais se ouve, em Porto Alegre, é que Silas perderá o emprego, questão de mais dia menos dia. Pode ser hoje, se seu time, na zona de rebaixamento, sair machucado da trombada com o Cruzeiro, em Minas.

Vida de técnico é dura, sabemos. O consolo é que, se perdem emprego, demoram pouco para arranjar nova colocação, ao contrário da maioria dos trabalhadores desta terra varonil. Para eles a fila anda bem rápido.

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