Órfãos da técnica brasileira

Como o futebol é o menos previsível dos esportes, o maior equívoco dos que o comentam é variar de opinião a cada rodada ao sabor dos resultados - para desdizê-la na rodada seguinte. Se não confundissem tanto opinião com previsão, não queimariam tanto a língua. É preciso esperar certo número de rodadas para detectar tendências, compreender mudanças, avaliar jogadores e sobretudo treinadores - e também para mudar de opinião, caso os fatos demonstrem sua inconsistência depois de decorrido esse tempo. Entre os que trocam de palpites como os placares trocam de números e os que mantêm certezas inabaláveis que depois fingem não ter tido, não precisamos ficar com ninguém. Deixemos as profecias para os polvos.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2010 | 00h00

Veja o caso dos dois líderes, Fluminense e Corinthians. Quando o Corinthians ainda estava no topo da tabela e alguém observava que não estava jogando tão bem quanto antes, diziam que não, que ele tinha uma sequência fácil e ainda abriria vantagem. Pois o Fluminense o ultrapassou. Agora o Corinthians continua jogando de modo irregular, mas a goleada recente sobre o Goiás fez muita gente acreditar que Adilson Batista é um técnico ofensivo e que Iarley ia desencantar como homem de área. No jogo contra o Atlético-PR, o time foi bem marcado e mais uma vez se deu mal fora de casa, mas houve quem jurasse que a culpa da lentidão era de Ronaldo, autor do gol de pênalti. Aí o Grêmio vem ao Pacaembu, vence - com golaço de Douglas, ex-Corinthians - e Iarley perde pênalti e gol na pequena área. Culpar quem? Sim, a ausência dos laterais titulares pesou, mas isso não justifica os gols perdidos.

As leituras primárias são a regra. O desempenho do Fluminense caiu nas últimas rodadas, justamente depois que Deco chegou; logo, só pode ser ele o culpado... Mas quem viu os jogos sabe que Deco, aos 34 anos, chegou em forma, se adaptou rápido e tem feito boas partidas. Ao lado de Conca, cria as principais jogadas do time. O que parece estar pesando mais é a realidade de que zagueiros e volantes não estão no mesmo patamar e, em especial, o ataque com Emerson e Fred era mais veloz e inteligente (Washington sempre chega marcando muitos gols e depois cai de média, embora queira obrigar todo companheiro a sempre passar a bola para ele), mais adequado para dialogar tecnicamente com a dupla de meias. Mesmo com esses problemas, o jogo de hoje promete, com Roberto Carlos (outro que calou previsões de fracasso), Deco e Conca no mesmo gramado.

Estamos na metade do Brasileirão e só dá para dizer com certeza que o nível técnico está baixo, muito baixo. Os goleadores são cada vez mais escassos, os jogos não raro têm mais de 40 faltas, os times pagam o preço de suas vendas. O Santos, com o marrentinho Neymar sobrecarregado, não tem como suprir as lacunas de Robinho e André, ainda mais com Ganso fora por ruptura de ligamento do joelho. O São Paulo não consegue disfarçar a falta que sente de Hernanes e das zagas excelentes que teve nos anos anteriores, com Alex Silva, Miranda, Breno e outros. O Palmeiras não se reergue, mostrando que nem técnico campeão pode dar jeito em elenco limitado (ou fazer de Kleber o artilheiro ou o craque que ele nunca foi). O Internacional, talvez com a cabeça no Mundial, tem bons jogadores, mas não tem conseguido jogar bem. Cruzeiro e Botafogo, embora sem grandes valores, não à toa ocuparam esse espaço: ao menos têm padrão tático.

Mas quem gosta de técnica continua tão órfão quanto um personagem de Dickens. Falta muito para a retomada do futebol brasileiro.

A Copa é nossa. Também falta muito para contar a respeito da decisão de ajudar o Corinthians a ter o estádio que nunca teve e que será justamente o estádio paulista na Copa. Ronaldo já tinha contado que Lula tinha indicado empreiteira. Andrés Sanches articulou na CBF, que falou com a Fifa. E... pronto?

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