Os bons camaradas

Tenho lido com curiosidade, e nenhum sobressalto, as reportagens do Jamil Chade a respeito da briga pelo poder na Fifa. A sucessão de Joseph Blatter, no comando da família do futebol, corre solta entre a alta cartolagem. Como é praxe em tais situações, os bastidores fervem e sobram caneladas. Pelos relatos do vibrante correspondente do Estado na Suíça, tem mais brucutu engravatado do que zagueiro botinudo espalhado pelos gramados da vida. O fair-play tão sugerido pela entidade só serve para os atletas ou como encenação antes de competições internacionais. Para os mandachuvas, a coisa funciona na base do vale-tudo.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2011 | 03h06

Quantas vezes você viu Blatter a circular com o dono da bola no Brasil? Eram carne e unha, Batman e Robin, Simon & Garfunkel, Gordo e Magro. Enfim, uma dobradinha inseparável. Pareciam Danni de Vito e Arnold Schwarzenegger em Irmãos gêmeos, comédia divertida. Tão camaradas que a Copa de 14 veio pra cá.

De uma hora para outra, o relacionamento esfriou, aparições conjuntas se tornaram escassas e protocolares, os salamaleques minguaram. Cumprimentam-se, conforme os princípios da etiqueta, se possível trocam elogios singelos, cumprem as pautas oficiais. Depois, "boa noite, Osvaldo", como dizia o impagável Janjão Rodrigues, um dos mais brilhantes repórteres que conheci. É cada um para seu canto, com sua turma. Mantêm-se unidos no projeto comum de organizar Mundial lucrativo. Como se trata de empresários, lhes foi conveniente adaptar o ditado popular para "Inimigos, inimigos, negócios à parte."

O pessoal que conhece a rotina do palácio de Zurique onde brilha o símbolo da Fifa garante que a raiz dos desentendimentos é a presidência. Cargo cobiçado, para poucos ungidos, aguça o desejo dos mais ambiciosos. Por isso, como em qualquer trama política tradicional, há os movimentos em busca de apoio aqui e ali, entre o eleitorado, se não ocorrer entendimento e candidatura única. Como parece ser o caso no momento.

Já faz tempo que se admite, nestas bandas, o sonho de outro patrício nosso ocupar o trono da Fifa, inspirado pelo exemplo de João Havelange. Insinuava-se que Blatter via a pretensão com simpatia. No meio do caminho, veio a volta do parafuso, Michel Platini ganhou prestígio como presidente da União Europeia de Futebol e o caldo pode entornar. Daí, como em tantas campanhas presidenciais que você já pôde acompanhar, entra em campo a guerra de nervos. Um que assopra um veneninho contra o rival, outro que responde com uma manobra mais pesada, até a hora do confronto inevitável. Passada a refrega, se recompõem, se assim for do interesse das partes outrora litigantes. (Nossa, parece linguagem de ofício!)

O indício de que a maré anda agitada é a ameaça de virem à tona documentos esclarecedores sobre o escândalo da ISL. Lembra: Era uma agência de marketing ligadíssima à Fifa, faliu anos atrás e, com a quebra, abundaram indícios de que muitos cartolas receberam grana por fora em contratos de publicidade. O caso rolou em sigilo, na justiça suíça, e agora é usado como forma de pressão para os grupos que disputam o poder.

A Fifa jura que é a favor da transparência, prometia revelar ao mundo os papéis que tem guardados, mas alega que não pode fazê-lo agora porque a outra parte entrou com recurso. Quer dizer, cada um sabe os trunfos que possui e até onde o rabo está preso. Não tem bobo nessa história, fique certo disso. E não deixe o queixo cair, se lá na frente houver armistício. Eles não dão ponto sem nó.

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