Os brasucas viraram europeus

Muitos anos atrás, quando começavam as transmissões de partidas do Campeonato Italiano para o Brasil, estava eu vendo um jogo em que um dos times era a Fiorentina. Naquele tempo não havia ainda tantos jogadores brasileiros na Itália e eu olhava meio distraído o desfilar de divididas, correrias e bolas levantadas para a área. Passados alguns minutos, porém, comecei a notar um jogador, que não sendo excepcional, tinha alguma coisa de diferente.Por alguma razão não conseguia fixar o nome. Mas, olhando o modo como se movia em campo e tocava na bola, pensei: esse cara é brasuca. O lance de que ele participava adquiria desenho diferente, ele se movia diferente, a coreografia da jogada era outra, com algo dos enfeites, da sofisticação tipicamente brasileiros. Finalmente ouvi o nome: Oliveira. Nunca tinha ouvido falar, nem sabia de quem se tratava e sequer me parecia um grande jogador. Mas, por alguns toques de bola, eu sabia o suficiente: era brasileiro.Com o correr dos anos, no entanto, acho que Oliveira, e com ele os outros brasileiros na Europa, foram vencidos pelo estilo local de jogar bola. Porque não consigo mais distinguir em transmissões de jogos de campeonatos europeus quem é brasileiro e quem não é.Não se trata de nacionalismo, muito menos de saudosismo. Não participo de sentimentos do tipo "como era verde meu vale", e, por outro lado, sei muito bem dos nossos defeitos nacionais. Se trata apenas de tentar preservar, egoisticamente, meu prazer pessoal. Não consigo me importar muito com vitórias, derrotas, conquistas, etc, etc. Vou atrás do prazer estético.Porque pra mim futebol é principalmente uma experiência de beleza. Vou a um campo à espera de uma jogada magnífica, mirabolante, única, às vezes irrepetível, que vai ficar anos comigo e na minha lembrança. No mínimo alguma demonstração de classe, de elegância e de inteligência. A inteligência que vence a força. A astúcia que vence a truculência.E simplesmente acho que a maneira de se jogar na Europa impede muito do que gosto e procuro numa partida. Trata-se de uma questão pessoal certamente. Muita gente acha beleza em táticas, jogadas ensaiadas, lances práticos e eficientes. Respeito, mas eu não. Gosto do lance individual e da habilidade, improvisada numa fração de segundo.Por isso acho que, para o meu gosto, o jogador brasileiro que atua na Europa piora. E piora muito. Muda até de andar. Encorpa, fica musculoso, mais forte e muito menos inteligente. Estarei exagerando? Estarei entrando em lento processo de delírio e começando a ver coisas? Examinemos essa última, em falta de melhor palavra, partida, contra a Bolívia.Me digam, por favor: esse Maicon jogava assim no Brasil? Já era forte como um touro, dava pontapés na bola e saía correndo dando marradas no adversário, tentando passar por cima dele? Luiz Fabiano era isso no São Paulo? E o Josué? É o mesmo? Sem falar em Robinho e no Gaúcho?Pra completar minha possível alucinação, tenho certeza de que em um ou dois lances, que não terminaram em gol é verdade, um jogador que joga no Brasil, por instantes, me fez ter a mesma reação que tive ao ver Oliveira naquele distante jogo da Fiorentina: esse cara é brasuca. O jogador é o Nilmar e joga no Inter. Mas, como joga aqui, passou quase a partida inteira no banco, olhando os "europeus" jogarem.

Ugo Giorgetti, O Estadao de S.Paulo

14 de setembro de 2008 | 00h00

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