Os brutos também dançam

Boleiros

Daniel Piza, daniel.piza@grupoestado.com.br, O Estadao de S.Paulo

23 de abril de 2008 | 00h00

Nada como um jogo depois do outro. Vi, no entanto, poucas comparações entre o primeiro e o segundo da semifinal entre São Paulo e Palmeiras. Se no domingo retrasado o São Paulo foi superior taticamente ao Palmeiras, embora este tenha sofrido um gol irregular e tido chances claras de empatar, no domingo passado o Palmeiras jogou melhor, tanto tática como tecnicamente, ainda que o São Paulo tenha dado muito trabalho. Acho fácil e equivocado dizer que um teve mais garra do que o outro; ambos lutaram muito. Nessas condições alteradas de temperatura e pressão, o que faz a diferença são as características de cada time e o modo como são aproveitadas.O Palmeiras não cometeu o mesmo erro da primeira partida e entrou com duas atitudes diferentes: Henrique e Gustavo se preocuparam em marcar Adriano, um na antecipação e o outro na sobra, enquanto Martinez e Léo Lima impediam Jorge Wagner de realizar os cruzamentos para ele; e os meias, Diego Souza e Valdivia, participaram muito mais das jogadas de meio-campo, quando estavam com a bola ou sem ela. Com isso, Luxemburgo anulou as principais jogadas do time de Muricy, tal como este havia feito na semana precedente. E, como seu esquema tem mais variação tática, inclusive pelas opções de banco, o Palmeiras confirmou ser o melhor time.O São Paulo só melhorou em relação ao ano passado no quesito Adriano, que faz mais gols do que Aloísio, mas piorou em quase todos os outros, por contratações malfeitas. Perdeu, por exemplo, a capacidade de segurar a bola no campo adversário, o que Souza e Leandro - sem ser os craques que pensam ser - ajudavam muito a fazer. No segundo tempo, com a necessidade de empatar, colocou pressão no Palmeiras, mas expondo a defesa à habilidade adversária. Valdivia não mudou a história do jogo pelo gol ou pelas provocações, mas por jogadas como aquela em que driblou três são-paulinos e terminou derrubado por André Dias, zagueiro cuja expulsão foi sentida no lance do segundo gol.O contra-ataque que culminou no gol de Valdivia foi construído pelos três jogadores que Luxemburgo colocou no segundo tempo, ciente de que o adversário viria para cima. Já Muricy não tinha como mexer mais. Optou por Dagoberto no primeiro tempo, porque ele havia puxado jogadas do meio-campo na partida anterior; e por Borges no segundo, para dividir com Adriano atenção dos zagueiros. Não dá para dizer que o contrário teria sido melhor. Até porque atuar na casa do adversário - daí a justa razão do Palmeiras de não jogar no Morumbi - implica saber que a torcida tem peso. Futebol não é previsível, mas tem suas lógicas: mais de 70% dos jogos são vencidos pelos mandantes.Quem não tem familiaridade com o futebol não entende quanto ele é jogado sob tensão. O bom jogador não é aquele que fica fazendo ''arte'', ''balé'', ''firula'', enquanto os outros batalham. É o que se lembra de fazer, no momento de maior voltagem, um gesto de criatividade que demole esquemas de combate; é ao mesmo tempo guerreiro e bailarino. Os brutos também dançam.DECISÃO NO PALESTRAA maioria dos jogadores são-paulinos garantiu que o episódio do gás no intervalo não foi o que determinou a vitória palmeirense. Concordo. De qualquer forma, o São Paulo foi prejudicado. Não sei se o Palestra deveria ter sido interditado, já que era sua responsabilidade impedir ações de vândalos. Mas é fundamental que os responsáveis sejam punidos - com multa, ao menos. Perdoar o erro é reincidir nele.

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