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Os caça-fantasmas

Fraude é uma palavra que está em voga. Só se fala nisso nos noticiários e cada dia aparece, se não uma fraude nova, pelo menos um novo aspecto da mesma fraude que ocupa o país.

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2015 | 02h02

Talvez seja a facilidade com que a palavra passou a circular entre nós, mas o fato é que a paranoia em torno do famigerado delito afetou até o pessoal responsável pela eleição para presidente do Corinthians. Uma deliciosa matéria, escrita por Almir Leite e Vítor Marques para o Estadão de sexta-feira, nos dá conta disso e merece registro. A Comissão Eleitoral do Corinthians, obcecada por civismo e "transparência" fez uma descoberta na lista de associados que imediatamente soou, na minha opinião indevidamente, como um alarme. A descoberta indicou que 686 eleitores, associados do clube, tem mais de 100 anos - três deles tem 115, portanto, como pontua o texto, seriam mais velhos do que o clube.

Meus olhos não acreditavam no que estavam lendo. Tive de ler e reler essas informações espantosas: o Corinthians tem 686 (!) sócios com mais de 100 anos, três com 115!!! Está tudo lá, preto no branco. Sei que estamos vivendo mais e, pessoalmente, essas informações vão ao encontro de todas as minhas esperanças. Nunca pensei que no Brasil inteiro pudesse haver algo como 686 supra centenários e muito menos gente com 115. Para mim isso era coisa de algum caso raro no Cáucaso, de um ou outro fenômeno em ilhas perdidas da Ásia remota, mas nunca entre nós, aqui ao lado, no Corinthians.

Não acredito em fraude, nem em mistificações! Essa lista é verdadeira, não fruto de desorganização, desleixo ou descaso que tornariam os cadastros de associados desatualizados e cheios de erros. Não, tenho de acreditar que estão vivos, alegres e preparados para votar.

Por que não? Por que esse preconceito, principalmente agora, quando decrepitude é a "melhor idade"? Escrevo na sexta-feira, véspera da eleição, com a certeza de que um exército espectral, ainda com vestígios das mitológicas ruas do Bom Retiro onde se fundou o clube, caminhou, talvez com alguma dificuldade, é verdade, até a mesa eleitoral e deu seu voto. Creio até mesmo que os velhinhos decidiram o pleito, ou tiveram papel fundamental no resultado.

Vejamos: calcula-se que 3.500 sócios devem ter votado nas eleições de ontem. Se essa cifra é verdadeira, os 686 centenários, mais os três de 115,representam porcentagem mais do que importante. Se, por alguma razão, votaram unidos, por exemplo, em torno de um nome afinado com as ideias da velhice, certamente podem ter decidido a eleição. Portanto, nessa Libertadores que está em jogo, atenção! É bom examinar cuidadosamente as novas contratações e possíveis novidades na condução do time. Os centenários podem estar decidindo.

Embora com uma ponta de ceticismo, que posso compreender, mas não concordar, o presidente da comissão eleitoral foi obrigado a admitir que não recebeu nenhum atestado de óbito comprovando que um associado do clube faleceu: "Já ouvi falar no clube que determinada pessoa faleceu. Então que me traga o atestado que o nome será excluído." Exatamente! Não se deve dar crédito apenas a boatos e rumores. Não se deve ficar exposto a embaraços como, por exemplo, em plena votação, um rumor de tosse, ou de passos vagarosos, denunciar a presença inesperada de um eleitor na flor dos 115 anos.

Por via das dúvidas o presidente da comissão fez questão de lembrar que haverá fiscalização para conferir o documento do associado. Espero que os centenários não tenham sido vítimas do mal da idade que implica em esquecer coisas com frequência. Um simples documento esquecido pode ter-lhes custado o voto. Por fim, não sei se alguém tomou uma providência, que, creio, deveria ter ocorrido à assessoria de imprensa do clube ou ao marketing. Eu teria avisado o Fantástico.

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