Os craques pensam antes

Qual é o principal vilão do futebol nesse filme de mocinhos e de bandidos encenado nas últimas três décadas? Acertou quem respondeu o treinamento, superior até à facção da cartolagem que viu no esporte um meio de vida antes mesmo de administrá-lo profissionalmente.

PAULO CALÇADE, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2010 | 00h00

Não há como atribuir um limite para a evolução física do jogador, determinar parâmetros objetivos para a manutenção de um modelo de jogo definido como o ideal, o artístico, o proprietário da beleza extirpada pela correria. O de ontem.

Se o futebol atual não presta, então como se explica o praticado pelo Barcelona? Como defini-lo? Por que os catalães conseguiram alcançar um estilo aplaudido até pelos rivais? Você já ouviu alguém reclamando da correria do time de Pep Guardiola?

Na vitória sobre o Espanyol, no sábado, mais uma goleada para sair do estádio e pagar um novo ingresso. O placar de 5 a 1 foi uma aula de contra-ataques e, obviamente, de velocidade. Até quem troca 600 passes numa partida, circulando a bola de um lado para o outro, pode ser veloz sem perder a magia.

O Barça determina o seu ritmo, o campo parece ter dimensões diferentes, assim como a duração de suas partidas. A instituição estabeleceu uma ideia e trabalha por ela, do juvenil ao profissional.

E o Santos do primeiro semestre, contundente, refinado, desequilibrado e desequilibrante? São exceções, é claro, mas que deixam pistas do caminho a ser seguido. Sim, é possível até aqui no Brasil exibir algo que mereça ser chamado de futebol. O mais importante é que o presidente santista, Luís Álvaro de Oliveira Ribeiro, está encantado com essa proposta.

O treinamento não aniquilou o talento, ao contrário, o potencializou. A mudança de padrão de velocidade transformou todos os esportes. Nessas décadas marcadas pelo confronto de estilos, passamos muito tempo reclamando, diagnosticando a doença e trabalhando muito pouco pelo remédio.

Todos os esportes foram impactados pela ciência. Em 2010 tivemos duas boas histórias de como utilizá-la para criar um espetáculo de verdade. Na Espanha e no Brasil vimos exemplos de um jogo capaz de reunir ingredientes do passado e do presente sem a perda de qualidade.

A preparação física é positiva, desde que esse aspecto do treinamento não seja o predominante. Podemos mudar o sentido disso. Possivelmente a exceção vai se transformar em regra no momento em que os clubes começarem a perceber que o treino é um meio e não um fim, e que há fatores igualmente importantes na construção de uma identidade futebolística, como o técnico, o tático e o psicológico.

A técnica é perfeitamente treinável e até a habilidade pode ser melhorada desde que haja tempo. Por isso que as divisões de base são fundamentais. Quando se chega ao time profissional, porém, a questão é outra, é de agenda. O excesso de partidas consome etapas importantes do treinamento: é jogar e se recuperar, jogar e se recuperar...

Sem solução. A comparação entre épocas é desgastante e já devia estar superada, não traz solução. Se não nos mobilizarmos, daqui a 30 anos vai ser igual. O pessoal de amanhã vai dizer que o futebol de hoje é que era bom, assim como a turma de hoje garante que o legal era o de ontem.

A velocidade chegou para ficar e pode ser ampliada. A evolução física não estragou nada. O mais provável é que ela ainda não tenha sido entendida. Prefiro acreditar que estejamos passando por uma fase de adaptação. Está mais difícil jogar, é verdade, hoje é impossível receber a bola e depois parar para pensar no que fazer com ela. Os craques pensam antes. E também correm.

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