''Os culpados por derrotas eram castigados''

YOON MYONG-CHAN, Ex-técnico da seleção da Coreia do Norte, EXILADO EM SEUL, ELE FALA SOBRE A RELAÇÃO ENTRE O FUTEBOL E A POLÍTICA

, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2010 | 00h00

Yoon Myong-Chan conta que as condições dos atletas de futebol da Coreia do Norte melhoraram bastante desde a última participação do país em Copas do Mundo, há mais de quatro décadas, em 1966. De acordo com o ex-treinador, a situação está um pouco menos militarizada, mas a opressão ainda existe. Ele aposta que não há possibilidade de os atletas pedirem asilo político durante a Copa, como costumam fazer, por exemplo, os cubanos em competições como a Olimpíada ou Campeonatos Mundiais de modalidades esportivas.

Em 1966, muitos dos jogadores eram oficiais do exército norte-coreano. Isso ainda é o caso da seleção atual?

Hoje os jogadores não são exatamente soldados. Mas estão sob o treinamento do braço de educação física do exército. Ou seja, na realidade não são soldados, mesmo que tenham uma ligação com as forças armadas.

Como o futebol se desenvolveu na Coreia do Norte desde 1966?

O futebol se desenvolveu muito no país desde aquela época. Hoje, jogadores que tem uma origem japonesa em suas famílias e que vivem na Coreia do Norte também são autorizados a atuar pelos times do país. Há ainda uma maior liberdade para permitir que alguns jogadores atuem no exterior. De uma forma geral, o futebol se desenvolveu muito nos últimos 50 anos na Coreia do Norte.

Qual é a relação hoje entre a seleção nacional e o regime de Pyongyang?

De uma forma geral, há muita pressão política, principalmente quando os adversários são times como a Coreia do Sul ou o Japão. Isso nós sentimos sempre e a cada partida. Mas esse fenômeno foi ainda mais extremo e severo no passado. Quando um time norte-coreano perdia para um time sul-coreano, os culpados pelo fracasso eram levados à força a minas de carvão para trabalhar. Muitas vezes, esses culpados, que poderiam ser jogadores ou técnicos, eram levados pela polícia antes mesmo de desfazer suas malas quando retornavam de uma partida.

Os jogadores de 1966 sofreram algum tipo de ameaça também?

O vice-presidente da federação, Park Deum-Cheol, que era quem dirigia também o Departamento de Educação Física, foi acusado de fazer parte de uma seita. Muitos jogadores passaram a ter suas identidades e histórico investigados. O comportamento desses jogadores enquanto estavam no exterior passou a ser suspeitado. Portanto, heróis como Park Seung-Jin e o gênio do futebol Shin Young-Gyu foram forçados a ir a campos de prisioneiros políticos ou foram enviados ao interior.

Existe alguma possibilidade de que o mundo presencie uma fuga de jogadores norte-coreanos durante a Copa do Mundo?

A realidade é que não existem muitas possibilidades de escapar. Existem muitos jogadores de futebol e um jogador não é essencial para o time ou país. Além disso, é muito fácil que um membro da família de um jogador seja mantido como refém. Por isso, não é fácil imaginar que alguém vá tentar escapar na África do Sul.

Em 1966, a Coreia do Norte surpreendeu. Desta vez, o Brasil pode ser a vítima ?

Na atual situação, isso seria virtualmente impossível. A menos que milagres se repitam como na vitória contra a Itália em 1966. Mas o time hoje é fraco, em comparação com as demais seleções.

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