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Antero Greco
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Os estádios e a cidade

No começo da madrugada deste sábado, passei em frente ao Pacaembu, que estava com a fachada iluminada e enfeitada pela chuva fina, quase garoa, que dava o ar da graça. Talvez pelo fato de a final da Copinha estar marcada para lá e porque hoje é aniversário de São Paulo, na mesma hora bateu uma nostalgia do estádio mais charmoso que temos por aqui. A viagem da memória me levou a outros campos e a outros tempos da cidade.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2015 | 02h04

Não vou tocar violinos da saudade, mas admito que fico sensível quando se aproxima o 25 de janeiro. E o Pacaembu tem tudo a ver com o futebol brasileiro, mais especificamente o paulistano. É símbolo daqui, faz parte da paisagem, da história. Cada um de nós que curte o joguinho de bola tem algum episódio a respeito do "próprio da municipalidade", expressão brega e que não resisti de citar.

Um título inesquecível, uma derrota amarga, uma partida fantástica, um gol de placa, um drible de Pelé, um quebra-pau daqueles. Faça um esforço e você verá como logo vai se lembrar de um fato marcante. A concha acústica, o tobogã, as numeradas, as arquibancadas, os alambrados - tudo no Pacaembu é especial, diferente, exuberante.

Hoje a gente chega nele por metrô, mas houve época em que a praça Charles Miller e as ruas da vizinhança ficavam coalhadas de caminhões ou lotações que levavam os torcedores. Uma curtição fora de série, e não se falava em risco de alguém cair de cima da carroceria. Na cabina era reservada para alguém mais velho ou alguma dama.

Paira interrogação em torno do futuro do Pacaembu, ainda mais com a construção do Itaquerão e do novo Palestra, dois estádios lindos, modernos, à altura de Corinthians e de Palmeiras. Mas o "Paulo Machado de Carvalho" está na alma paulistana e torço para que não o abandonem nem o entreguem a aventureiros. No mínimo que seja tratado como monumento da cultura nacional, pois é disso que se trata.

Como o assunto é campo de futebol e aniversário local, nada se compara ao do Juventus, se quisermos entender o que São Paulo já foi. Ir à rua Javari é dar um salto no passado, curtir a rotina de um bairro de imigrantes e ver jogo como se fosse no interior. Quando era garoto, fui diversas vezes ao "Conde Rodolpho Crespi" e já havia o cannoli (doce italiano) à venda. Tem até hoje. Como profissional, curtia sair no intervalo pra tomar café com leite numa padaria ao lado da rua dos Trilhos.

Programa diferente era ir à Fazendinha, o Parque São Jorge. Pra quem morava no Bom Retiro, era uma viagem se mandar para o Tatuapé só para ver o "campo do Corinthians". Os mais veteranos sabem que o "Alfredo Schurig" abrigou grandes pelejas (o termo é antigo, mas também cabe nesta crônica) alvinegras e muitos craques pisaram naquele solo sagrado. Como também gente boa de bola desfilou no "Nicolau Alayon", o estádio do Nacional, na Comendador Souza, na Água Branca.

Fosse prefeito, vereador ou alguém com alguma influência, iria batalhar para que rua Javari, Fazendinha e Comendador Souza se transformassem em pontos turísticos da história da cidade e do futebol dela. O Pacaembu ficaria como ponto alto, claro, o gran finale do giro esportivo/sentimental. Olha que o investimento renderia uma grana boa...

Canindé, Morumbi e o antigo e desaparecido Palestra Itália igualmente carregam glórias, fantasmas e lendas. Cada um deles guarda um pedaço da grandeza dos respectivos clubes - e tropeços também, ora essa, porque a vida de um estádio não é feita só de conquistas e proezas.

Um olhar carinhoso para o estádio do Ibirapuera, para o da USP, esquecidos e tristes. Nem me atrevo a recordar os campos de várzea - CMTC Clube, Clube do Mé, aqueles espalhados pelo Bom Retiro, Pinheiros, Lapa, Freguesia, Belenzinho -, porque daí ia chorar e o papo deste domingo é para comemorar.

Meu carinho por São Paulo se manifesta hoje com este sobrevoo sobre os estádios. Parabéns, querida, sofrida, generosa cidade. Vida longa.

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