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Os goleiros e a sombra de um passado remoto

Goleiro é posição maldita no futebol. Quem já brincou no gol entende do que falo. Até em pelada de meio de rua - se há ainda algum lugar em que se possa jogar bola sem atrapalhar a vida dos automóveis -, o garoto que vacila na hora H ou engole um frango vai pra casa com os ouvidos entupidos de xingamentos. Pouco importa se, antes, fez defesas difíceis.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2014 | 02h08

Não sei o que leva um sujeito a submeter-se a tamanho suplício em vez de se mandar para a linha e distribuir dribles. Nem a falta de habilidade justifica escolha penosa - epa, sem trocadilho. Coisa de doido mesmo. Pior se tomar a coisa a sério e se tornar profissional.

Tive ontem a enésima demonstração de como o número 1 de um time carrega estigmas e até culpas que nem são suas mas compõem o perfil trágico do guarda-valas, como definiam locutores de outras eras.

Pois bem, sinta o drama. No começo da tarde, três moços toparam com referência a fantasma de passado remoto que assombra quem encara a tarefa de impedir que a bola entre nas redes da seleção. Espectro que parece esconder-se na névoa que baixa sobre a Granja Comary de improviso, ao menor cochilo do sol, como ontem mesmo, enquanto eles treinavam para desenferrujar.

Jefferson e Victor, com 31 anos, Julio Cesar, com 35 a bater na trave, tiveram de falar a respeito de Barbosa, o magnífico goleiro do Brasil que recebeu condenação eterna desde que o imaginário popular o culpou pela derrota por 2 a 1 para o Uruguai na final do Mundial de 1950. Isso mesmo, 64 anos atrás! O episódio passou para a história como "Maracanazo", de heróis do lado de lá (Gigghia, Obdulio Varella ) e vilões por aqui. Ou vilão, pois despejamos a frustração só nas costas do pobre do Barbosa, o caso mais injusto de nosso esporte. Até quem já reteve nossa poupança sem dó foi desculpado e hoje posa fagueiro na política. E o Barbosa jamais recebeu anistia. Pode?!

Como a Copa será de novo aqui, vai que o Uruguai cruze nosso caminho e se repete aquele rococó. Enfim, o assunto volta à tona. E se o goleiro?... "Se o Barbosa jogou na seleção, era formidável", devolveu de bico Julio Cesar. E emendou com um bem articulado discurso de que tem consciência das cobranças, não finge que as críticas e erros de 2010 passaram longe ("Senti o baque") e garante estar agora 100% em condições.

Que presunção! Que audácia de um moço que teve carreira enviesada nos últimos quatro anos, mais pra baixo do que pra cima. Verdade. Mas, sabe de uma coisa? Ele está certo. Goleiro muito humilde não vai pra frente. Se vier com conversinha miúda, papo bonzinho, some num instante. Goleiro de fibra fica com as penas do peru na mão sem se abalar, como se não fosse com ele. Assim faziam Leão e Taffarel. E não foi por acaso que reinaram com a amarelinha por tanto tempo; irradiavam confiança a companheiros e técnicos.

Que o Julio Cesar seja bacana com os amigos e a família. Com a camisa da seleção, precisa ser posudo, desde que feche o gol, claro.

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