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Antero Greco
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Os intocáveis

Lembra da figura do treinador todo-poderoso, que faz e acontece, decide quem entra e quem sai do time, de acordo com critérios pessoais e sem interferências? O homem forte, o paizão, o senhor dos destinos dos jogadores? Temidos por dirigentes e agentes? Pois é, esse personagem está em extinção no futebol. Resistem ainda alguns nomes muito especiais ou que trabalhem em clubes de menor expressão, sem gente famosa no elenco nem apelo popular expressivo.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

26 Setembro 2014 | 02h03

Calma, não nego o valor dos treinadores. Ao contrário, os considero imprescindíveis na estrutura do mundo da bola, para o bem e para o mal - assim como os cartolas, os massagistas, os preparadores físicos, os árbitros, etc. Muitos são magos, entendem demais do riscado e transformam punhados de atletas mais ou menos em equipes competitivas. São professores.

Mas algo mudou na rotina deles, na verdade no universo em que exercitam a profissão. Hoje expandiu-se a casta de jogadores com status de intocáveis, ou algo parecido com isso. Antes apenas os craques, testados e comprovados por meios de gols, dribles e passes geniais, se davam o luxo de obter um ou outro privilégio. Só deixavam a equipe por contusão, suspensão ou pelas inevitáveis e constantes chamadas para servir a seleção. No mais, eram presença obrigatória, garantia de qualidade no gramado e público nas tribunas.

A esses se permitiam, digamos, até certos deslizes. Uma ou outra besteira própria da juventude ou da exposição de quem é ídolo. Ouvi comentários do gênero "Fulano é um tanto espevitado, mas resolve, nem posso prendê-lo". Lembro de uma ocasião, lá pelo final dos anos 80, em que conversava com um pessoal do Napoli, no auge da carreira de Maradona, em que se fechavam os olhos para as estripulias dele. "Diego pode aparecer na hora da partida, jogar com uma perna só, que resolve." Uma deferência extraordinária.

O panorama mudou. A cobrança em cima dos destaques de um time cresceu, na mesma proporção em que aumentou o conjunto de interesses fora de campo. Um profissional acima de média atrai propaganda, serve para ações de marketing, contribui para o crescimento da renda do clube e, claro, engorda o saldo bancário pessoal.

Há casos em que as solicitações fora do âmbito esportivo são tão intensas que os treinamentos ficam prejudicados. Nem por isso, cedem lugar para os reservas. Não raro passa pela cabeça do técnico a vontade de dar um deixa pra lá na prima dona, oferecer-lhe um chá de banco até recuperar o ritmo.

Mas cadê autonomia para tanto? Virá o diretor com a conversa, convincente até, de que o moço faz parte da estratégia comercial do clube, que haverá pressão de anunciantes, da torcida, etc e tal. Entrarão em cena também os representantes do jogador: empresários, assessor disso e daquilo. Enfim, o staff. Pois é, boleiro que se preza tem um séquito que cuida até da roupa que usa. Certa liberdade só na hora de escolher os parças para divertir-se.

Treinadores nem se incomodam tanto quando se trata de uma figurinha carimbada, do teor de Romário, Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho e outros do mesmo quilate. O problema está na proliferação de intocáveis, na facilidade com que se coloca o rótulo de "especial" em quem não mereça. Como muitos jogadores viraram garotos-propaganda, como os direitos econômicos são fatiados entre os mais diversos "investidores", sobra para o técnico fazer piruetas para acomodar tudo - e ainda arrancar resultados práticos.

Nada contra o crescimento do poder dos jogadores. Longe disso. Quem dera todos pudessem ter liberdade de expressão e autonomia suficiente para debater com chefias e patrões, não virar joguete nas mãos seja lá de quem for. Mas, na medida em que desde a adolescência já ficam cercados de interesses fora do futebol, existe o risco de se criarem joias falsas, que perdem o brilho ao menor impacto. Provocam ilusão, enriquecem alguns e decepcionam a maioria - os fãs.

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