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Antero Greco
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Os saltimbancos

Ronaldinho Gaúcho e Adriano fizeram fama e fortuna na Europa nos anos 2000. Nas últimas vezes em que atuaram juntos na seleção foi na Copa das Confederações de 2005 e no Mundial de 2006, ambos na Alemanha. A dupla compôs o quadrado mágico armado por Carlos Alberto Parreira, que tinha nas outras pontas Kaká e Ronaldo. Era o bloco de elite para comandar a caminhada para o hexa, até topar com a França, de Zinedine Zidane, e cair nas quartas de final.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2016 | 03h00

O tempo passou, os dois viraram trintões, a carreira deu cambalhotas, porém custam a decidir-se por pendurar as chuteiras em definitivo. Adriano, 34 anos completados em fevereiro, está fora de circulação oficialmente desde abril de 2014, após experiência relâmpago no Atlético Paranaense. Agora, tenta a sorte como sócio-atleta do Miami United, um dos tantos times que surgiram nos EUA.

Ronaldinho, 36 folhinhas viradas em março, tem como vínculo mais recente a experiência brevíssima no Fluminense, em algumas rodadas do Brasileiro de 2015. Desembarcou nas Laranjeiras como o astro da companhia, ao lado de Fred, disposto a dar uma palhinha da imensa arte. Assuntou o ambiente, enrolou, mostrou repertório limitado e encerrou a parceira sem deixar saudades. Voltou para dois amistosos na Flórida no começo deste ano.

Antes do Flu, havia se exilado no México, a convite do Querétaro. Passou uns meses lá, sem acrescentar grande coisa, exceto grana na conta. Agora jogará no Peru. Na prática, episódio notável para o gaúcho foi o brilho efêmero e importante no Atlético-MG, com o título da Libertadores em 2013. Na época, foi restado pelo Galo após traumático rompimento com o Flamengo.

O rubro-negro é um dos tantos pontos em comum entre Adriano e Ronaldinho Gaúcho. Há outros, gritantes, como a habilidade com a bola, a fama justificada de bons vivants e o fato de se terem enfastiado muito cedo da rotina rígida da profissão. Para usar português claro e sem floreios: se encheram logo das agruras do futebol e optaram só pelo lado glamouroso da fama. E não vai aqui nenhum juízo de valor.

A dobradinha envereda pela vida nômade dos saltimbancos, artistas que rodam o mundo a divertir plateias variadas, dispostas a rir e nem tão exigentes. Público que se satisfaz com pequenos truques de algibeira e que, em troca, lhes permite faturar trocados. Muito bom para ex-jogadores em atividade, para usar expressão cunhada pelo confrade Paulo César Vasconcelos.

No caso deles, a recompensa é generosa, em dólares e similares, como ocorrerá daqui a pouco, no amistoso entre o Miami de Adriano e o Las Vegas, que chamou Ronaldinho. Jogo marcado para maio, já com a devida publicidade – e nisso os americanos são especialistas. Capaz de venderem a ideia de que se avizinha um dos “duelos do século” que acontecem a todo momento. Estão na deles, e lá seria tonto de criticar. Cada um tem direito de alegrar-se como quiser.

A hora de parar de vez cabe apenas a eles decidirem, ao notarem recados do físico, da mente e do mercado. Só não vale iludir ninguém, com conversa de profissionalismo, de sonho com seleção e baboseiras do gênero. Decente e honesto se admitirem que a intenção é a de adiar medida íntima e, enquanto isso, acumularem reservas financeiras. Dia desses Cafu rasgou elogios a Adriano e vislumbrou a possibilidade de vê-lo com a amarelinha em futuro breve. O capitão do penta foi magnânimo.

Se tivesse oportunidade, iria ver Adriano e Ronaldinho em campo, aqui, ali, acolá. Consciente de que não têm fôlego para aguentar o ritmo de jogos de verdade. Também se o preço do ingresso não fosse uma facada no bolso. E vida que segue...

A propósito: a dupla ganha espaço e crônica pela assinatura graúda. Mas a atividade de saltimbanco é a mais comum entre os boleiros. Basta olhar a quantidade deles que vai de camisa em camisa, em busca do pão quotidiano. Em geral por curtas temporadas e por soldo modesto.

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