Os sentidos da paixão

O que sobra do jogo da bola quando você já enjoou por completo do futebol negócio, dos pais de atletas, dos agentes, da voracidade econômica dos clubes europeus, dos cartolas, da CBF, do STJD e etc?

Luiz Zanin, O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2014 | 02h07

Respondo, amigos: sobra o nosso time de coração. Aquele que apoiamos esteja como estiver, na primeira, segunda ou enésima divisão. Que pode estar jogando bem ou mal, pode ter craques ou cabeças de bagre, pode golear ou estar sendo goleado, levantando títulos ou colecionando fracassos. A torcida é fiel como um cão labrador. Todas. E não apenas aquela justamente apelidada de a Fiel Torcida.

Claro, somos exigentes com os nossos times. Assim como somos com nossos filhos ou nossos melhores amigos. Na verdade, somos exigentes com aqueles que amamos. A quem não nos diz nada, dedicamos a indiferença. Não vamos perder tempo criticando quem não faz parte do nosso universo afetivo.

Já a escolha do time é algo tão importante e tão decisiva no destino da pessoa que remonta à infância, muitas vezes, a maioria, sob a influência do pai, se este for um indivíduo futebolisticamente ativo. Mas existem outros fatores que pesam nessa grave decisão. Amigos de escola, parentes, a predominância de um clube em determinado momento crítico na fase de formação da criança. Incontáveis garotos ficaram sob a influência do Santos na era de Pelé, depois na de Robinho e Diego e, por fim, na de Neymar. A torcida do São Paulo subiu demais no período de suas grandes conquistas e por aí vai. Já o Corinthians cresceu na adversidade, nos anos em que não ganhava nada e era chacota de todos. Como explicar o inexplicável?

Essa preferência pelos vencedores é o lado, digamos assim, pragmático da escolha. Há, no entanto, aquela maravilhosa devoção de torcidas a times que nunca conquistaram nada, ou de glórias tão ralas e esporádicas que poderiam ser resumidas numa linha de texto. Sempre me comovo ao ver essas torcidas de clubes às vezes muito antigos, mas que nunca foram "grandes" no sentido convencional do termo. Jamais cederam craques à seleção (no tempo em que isso acontecia com os clubes brasileiros), não são donos de patrimônios consideráveis, não são proprietários de "arenas" com padrão Fifa nem dispõem de uma torcida que se conta aos milhões de integrantes.

Tudo neles é modesto, do estádio aos elencos e à biografia. Às vezes ostentam um feito inédito no currículo. Ganharam determinado título em algum torneio importante, num remoto ano excepcional. Revelaram um garoto que, depois de ter migrado para um time grande, tornou-se estrela de primeira grandeza e acabou titular da seleção. Ou mudou-se para a Europa.

Essas glórias raras e modestas são suficientes para dar liga a uma torcida que não se dilui nem prefere se passar para o Barcelona ou o Bayern de Munique. Acho esse fenômeno um verdadeiro milagre da devoção, um dos insondáveis mistérios da paixão humana. Amar a quem quase não retribui a esse amor nem dá esperança de fazê-lo no futuro. Essas torcidas são um exemplo para todos nós. Gozam da minha mais imoderada admiração.

Concordo, em tese, com meus colegas que exigem uma melhoria do nível técnico do futebol brasileiro. Eu mesmo sou um defensor do futebol-arte, ou do que dele sobrou por aqui. Mesmo assim, sou obrigado a admitir que, se a torcida tem fome de beleza, pode passar muito bem sem ela. Em falta do caviar das grandes jogadas, o feijão com arroz da emoção e das vitórias nos sustenta muito bem. É a mística do time do coração, a magia da camisa amada, do manto sagrado.

Por isso mesmo seria muito bom os departamentos de marketing dos clubes venderem seu peixe, mas respeitarem os símbolos fundamentais do clubes. São eles que falam ao coração da torcida.

O Santos, por exemplo, é um time alvinegro, e não azul ou amarelo. Se são obrigados a se desfazer do craque, pelo menos não vendam a história e a tradição.

O torcedor é um apaixonado incondicional. Não convém abusar de sua paciência.

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