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Reginaldo Leme
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Ou Lotus ou nada

A volta de Kimi Raikkonen à Ferrari é mais do que uma simples substituição de piloto. Depois de quase duas décadas satisfazendo todos os desejos do piloto líder, desde Schumacher e agora com Alonso, a equipe italiana resolveu impor a sua própria vontade. Certamente cansada das atitudes de desrespeito do espanhol, o presidente Luca di Montezemolo resolveu mostrar que a Ferrari é mais importante do que qualquer um dos pilotos que tenham feito parte de sua história. Em outras palavras, Alonso teve de "engolir'' Raikkonen como companheiro. Como a saída de Felipe já tinha sido cogitada algumas vezes, principalmente em consequência da pressão de parte da mídia italiana, muito se comentava que o substituto natural seria Nico Hulkenberg.

Reginaldo Leme,

14 de setembro de 2013 | 02h08

O alemão de 26 anos, que se destacou no ano passado por ter batido o companheiro Paul di Resta quando correram pela Force India (fez 63 pontos contra 46 do escocês), certo de que estava bem colocado na fila dos pretendentes da Ferrari, até trocou a Force India pela Sauber para ficar mais perto da cúpula da equipe italiana. Ao conquistar um 5.º lugar em Monza, tinha certeza de ter melhorado ainda mais a sua cotação. Mas contratar Hulkenberg não teria o mesmo peso que contratar Raikkonen para a equipe que tinha dois objetivos a serem atingidos imediatamente: o primeiro era agradar à mídia italiana e o segundo, tirar o sossego de Alonso.

Kimi é um piloto bem mais experiente, que faz 34 anos em outubro, já disputou 187 GPs, com 20 vitórias, 16 poles e 75 pódios (dos pilotos atuais, é quem mais se aproxima de Alonso, 93 pódios). Foi campeão em 2007 pela própria Ferrari com apenas seis anos de F-1. É um caso único de piloto que pulou direto da F-Renault inglesa para a F-1. Com um ano de Sauber, foi contratado pela McLaren, onde ficou até 2006, sendo duas vezes vice. Na Ferrari, se mostrou um piloto de sorte, que foi campeão logo no ano de estreia graças a uma arrancada a partir do GP da Itália. Até então estava em 4.º lugar, mas nas últimas quatro etapas fez 36 pontos contra 25 de Massa, 20 de Alonso e 17 de Hamilton.

Depois de ser dispensado da Ferrari no final de 2009, Raikkonen passou dois anos correndo de rali e chegou a disputar algumas corridas do campeonato NationWide da Nascar norte-americana. Pegou todo mundo de surpresa quando anunciou que queria voltar à Fórmula 1 em 2012. Correndo pela Lotus, terminou o campeonato em terceiro e, além de ter vencido logo na prova de abertura em 2013, conseguiu estabelecer novo recorde de pontuações seguidas na história da F-1. Foram 27 corridas, desde o GP do Bahrein do ano passado até o da Hungria de 2013. Essa constância também fez diferença na escolha da Ferrari, que sempre tem em mente o Mundial de Construtores.

O perfil de Raikkonen não é o do piloto que pode criar problemas pessoais com Alonso. Mas a situação pode mudar se o espanhol perceber que não tem mais a atenção plena da equipe. A performance de Felipe Massa não foi boa nos dois últimos campeonatos, mas não se pode esquecer que exatamente um ano depois do acidente que sofreu em 2009 na Hungria, no dia 25 de julho de 2010, ele estava liderando o GP da Alemanha até o momento em que o mundo todo ouviu pelo rádio a famosa frase do engenheiro Rob Smedley: "Alonso está mais rápido do que você''. Essa mensagem, ouvida no mundo todo durante a transmissão da prova, na verdade era a quinta que Felipe recebia naquela corrida. E tinha o tom de aviso definitivo de que deveria trocar de lugar com Alonso. Aquilo foi duro de engolir. Estava ali decretado que ele passaria a ter a obrigação de correr para ajudar o espanhol.

Felipe aguentou muito desaforo porque tinha esperança de recuperar a confiança. Procurou ajuda de terapia, conseguiu uma boa melhora de produção no começo desse ano, mas a partir de Mônaco tudo deu errado. Felipe, sem dúvida uma das melhores pessoas que conheci em 40 anos de F-1, merece tentar um caminho diferente numa equipe em que possa correr livremente. Mas eu o conheço suficientemente bem para saber que ele só aceitaria continuar na F-1 se for para correr na Lotus. Ali poderia recuperar uma liberdade há muito tempo perdida na Ferrari. Ou isso ou nada.

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