Ouro de Rafaela cria uma ''maré de esperança''

Judoca de 16 anos atribui conquista a programa social que a tirou da rua

Valéria Zukeran, O Estadao de S.Paulo

25 de outubro de 2008 | 00h00

A medalha de ouro de Rafaela Silva, de 16 anos, no Campeonato Mundial Júnior de Judô, em Bangcoc, Tailândia, foi muito mais do que uma simples vitória esportiva. O resultado também está coroando o sucesso da iniciativa promovida pelo judoca Flávio Canto em áreas de alta criminalidade do Rio. A judoca da categoria - 57 kg foi revelada no Projeto Reação, que tem como objetivo a inserção social através do esporte.Na final, Rafaela levou apenas 23 segundos para ganhar por ippon da francesa Automne Pavia. A atleta atribuiu a vitória ao trabalho realizado no projeto que a adotou há oito anos. "Eu treinei muito desde que ganhei o Brasileiro Júnior, no começo do ano. Meu técnico, Geraldo Bernardes, sempre acreditou que subir ao pódio em uma competição assim seria possível." A atleta diz que se inspira no estilo de Canto, especialista em luta de chão. "Eu também sou fã do newaza."Mas vitória maior a atleta vem dando fora dos dojôs - de aluna-problema na escola que freqüentava no bairro Cidade de Deus, no Rio, a bolsista de um colégio particular e com perspectiva de chegar à universidade em dois anos. "Antes eu ficava todo o tempo na rua brigando e fazendo bagunça", disse a campeã. Segundo Flávio Canto, a realidade da atleta mudou com o esporte. "Outro dia ela disse que antes, quando era chamada para a sala da diretora da escola era para tomar bronca. Agora, é para ganhar parabéns." O judoca comemorou o resultado. "Acho que é importante que o pessoal (do Projeto Reação) tenha essa referência interna. A vitória da Rafaela aumenta a motivação de todo mundo. Cria uma maré de esperança."O técnico Geraldo Bernardes confirma que a campeã mundial deu algum trabalho no início. "Ela e a irmã Raquel (de 18 anos, que ficou em sétimo no Mundial Júnior) eram realmente muito agitadas, mas vi que tinham potencial." Segundo o treinador, a característica mais impressionante de Rafaela é sua tranqüilidade. "Ela é muito solta. Entra para lutar como se fosse fazer parte de uma brincadeira. A Rafaela não sente o peso da competição."Para Canto, muito do mérito da vitória da atleta do Projeto é fruto do trabalho de Bernardes e da dedicação da judoca. "Eu, por exemplo, comecei a lutar muito tarde, aos 14 anos, mas o Geraldo acreditava no meu potencial. Ele é daquelas pessoas que a gente só vê em filme. Não poderia ter pessoa melhor como coordenador geral do projeto." O judoca também ressalta que a atleta e também a irmã, que tem uma filha de três anos são muito dedicadas. "As duas acreditam muito nelas. Têm muita determinação e coragem - quando chegam para competir, atropelam."Rafaela não foi a única medalha do Brasil no Mundial Júnior de Bangcoc. Camila Minakawa na categoria -63 kg, ficou com a medalha de bronze.

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