Ouro que vale ouro

Vista Chinesa

Daniel Piza, daniel.piza@grupoestado.com.br, O Estadao de S.Paulo

25 de agosto de 2008 | 00h00

Para a China, a Olimpíada foi um sucesso. Apesar das críticas do Ocidente à polícia e à poluição, os jogos transcorreram de forma organizada e contagiante. Os chineses ganharam 100 medalhas, 15 a menos do que os EUA, mas 15 ouros a mais, fazendo jus à condição de anfitriões.Não houve incidentes graves e o país cumpriu sua promessa de fazer uma Olimpíada com boa estrutura e "fair play". Note como o corredor Liu Xiang, que se contundiu antes da final dos 110 m com barreiras, não foi acusado de falhar na hora H e trair sua pátria, apesar da comoção nacional.Os EUA levaram surra no ouro, mas em compensação tiveram uma das duas sensações do torneio, Michael Phelps (ao lado do jamaicano Usain Bolt). E a quantidade de recordes mundiais e olímpicos batidos na natação e no atletismo são outros marcos históricos consagrados em Pequim. Quem dizia que a poluição afetaria o desempenho agora tem de se retratar. No campo esportivo, fora uma polêmica ou outra, Pequim foi impecável.Para o Brasil, a participação foi um anticlímax em relação ao oba-oba gerado pelo Pan do Rio. O país conseguiu as mesmas 15 medalhas de 1996 e não superou os cinco ouros de 2004. Foram apenas três ouros para uma delegação que reuniu 277 atletas.Não sou desse tipo de pessoa que gostaria que o Brasil fosse uma "potência olímpica", até porque China e EUA sempre usaram e usam os esportes como propaganda ideológica, mas não posso deixar de lamentar esse desempenho.As três medalhas foram emocionantes como histórias pessoais. César Cielo bateu recorde. Maurren Maggi venceu suspensão por acusação de dopping. E as meninas do vôlei derrubaram o estigma de que não aguentavam pressão na hora H, de que teriam "amarelado" em outras finais. Mari e companhia jogaram muito na final contra os EUA. Ironicamente, o vôlei masculino, que os comentaristas diziam imbatível, foi quem perdeu para os mesmos EUA. O bloqueio americano foi muito melhor que o brasileiro, e os levantadores deixaram a desejar; Giba desperdiçou boas cortadas no quinto set.Atletismo, natação, ginástica e modalidades como levantamento de peso são a essência da Olimpíada desde os gregos: força, resistência, velocidade. Esportes como ping pong e badminton têm seus fãs, não a mesma importância. O Brasil ainda depende demais dos esportes coletivos, que incham sua delegação e, no caso do futebol, só decepcionam. Mas o vôlei, feminino e masculino, continua a ser o melhor exemplo brasileiro na Olimpíada, por sua dedicação. Já a seleção de futebol parece sempre fatigada, como se pudesse resolver qualquer jogo a qualquer momento.Os chineses decidiram que ir bem na Olimpíada era fundamental ainda em 2000, antes de saber que Pequim seria a sede. Centros de formação e mudanças escolares foram construídos. Os chineses não queriam um evento meia-boca e não entregaram. Mas isso não significa que você não deva ver os inúmeros problemas do pais. Apenas não pode, como diante dos espetáculos de Zhang Yimou, dizer que a China é vítima um papéis pobres. E que nem tudo que reluz é medalha de ouro.

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