Outro dia tive uma agradável surpresa

Outro dia tive uma agradável surpresa. Estava no trânsito, parado evidentemente, quando olhando para as pessoas que, felizes, andavam a pé pela calçada, divisei uma camisa 11! Sim, alguém vestindo a camisa de um time grande e, maravilha das maravilhas, nas costas havia o número 11. Não foi uma miragem. Era o 11. Me pareceu uma camisa igual às outras, com patrocinador e tudo. De diferente só o 11. Tentei seguir o homem para ver melhor a camisa, mas é claro que ele, a pé, foi mais rápido do que eu e desapareceu. Foi o suficiente, porém, e ganhei a manhã. Alguém ainda se lembrava do 11! É incrível como hoje só vejo nas costas dos jogadores números como 34, 42, 23 e assim por diante. Mas pouco tempo atrás, alguns segundos atrás, eles ainda iam do número 1 ao 11. E o 11 sempre me fascinou. Talvez por ser o último; depois dele vinha o nada. Na extremidade, na borda, quase fora do campo lá estava ele: o 11. Nas antigas escalações, seu nome era sempre precedido de um "e". Dorval, Jair, Pagão, Pelé ..e Pepe. Claudio, Luizinho , Baltazar, Carbone ..e Mário. Liminha, Humberto, Ney, Jair?e Rodrigues. Maurinho, Zezinho, Gino, Zizinho ?e Canhoteiro. Era como se tivesse chegado atrasado e fosse lembrado na última hora, no último instante. O time era assim, assim, assim, ah! "e" tem mais um, o ponta-esquerda.

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2010 | 00h00

Por isso eles eram diferentes. Já eram diferentes no nome. Havia uma profusão de Canhoto, Canhoteiro, Canhotinho, que já se sabia onde iam ficar no campo. Nunca houve um Destro, Direito, ou algo assim.

Só o esquerdo já era diferenciado pelo nome. E de fato eram diferentes. Ou eram muito estranhos, de futebol complicado difícil de classificar, ou tinham um chute indefensável ou eram malabaristas, mágicos e acrobatas.

Ninguém sabia bem como lidar com eles, e, para falar a verdade eram um pouco evitados pelos treinadores. Melhor deixá-los em paz com seu futebol. Na ponta esquerda o espetáculo era diferente e por lá se esperava qualquer coisa. Chutes incríveis como de Pepe e Rodrigues.

Fintas fantásticas como de Mário, Canhoteiro, Abel, Edu, Julio "Uri Geller" Cesar, Joãozinho ou João Paulo.

Nunca se conseguiu domá-los direito, esses número 11. Demorou para que fosse encontrada uma função "nobre" para eles. Enquanto na direita Claudio Cristovão Pinho e Telê Santana, já por 1950, jogavam recuados e regiam os times em campo, na esquerda a coisa foi aos trancos e barrancos. Zagallo foi primeiro ponta "sério". Foi através do seu jogo que a "tática" e a "função em campo" finalmente chegaram na ponta esquerda. Não que ele fosse mau jogador. Era bom. Mas não era diferente, nem parecia canhoto. Lentamente, ano após ano eles foram sendo vencidos, amansados e hoje não existem mais. E com o tempo o número também foi deixando de ser visto. Não me lembro de ver jogadores com a 11 em campo. Admito que talvez seja meu inconsciente que esteja apagando os 11 atuais. Talvez eu não queira vê-los e crie a ilusão que não existem mais. Mas nas camisas dos torcedores, porém, aí sei que não estão. Tenho certeza. Ainda há vários 9 e 10, um 7 perdido aqui e ali, muitos 23, 47. Mas 11, nunca. Por tudo isso fiquei extremamente feliz de rever um 11 nas costas de um torcedor de hoje. Porque não era nenhum velho, era um rapaz, um jovem. Mas pensando bem, pode ser que a camisa tenha sido presente do avô.

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