Pacaembu 70

O Estádio do Pacaembu nasceu como tantas obras em São Paulo - querendo ser o maior. Inaugurado há 70 anos, foi um marco tanto na história do futebol como na história da cidade. Ajudou a pavimentar a transição da várzea para o profissionalismo, nos esportes, e consolidou a importância da economia paulista no Brasil de Getúlio Vargas, que discursou na cerimônia de 27 de abril de 1940. Hoje o estádio onde craques de Leônidas a Ronaldo já brilharam, e que sedia o excelente e muito visitado Museu do Futebol, trava outra peleja: voltar a ser um estádio de seu tempo, com um mínimo de lugares e recursos para entrar no mapa de grandes finais e grandes shows.

Daniel Piza, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2010 | 00h00

 

Saiba o que acontecia há um século

Luiz Afonso de Andrade nasceu como tantas pessoas em São Paulo - precisando trabalhar desde cedo. Prestes a completar 62 anos, dos quais 28 dedicados ao estádio, ele é carinhosamente chamado de "prefeito do Pacaembu" e, como diz seu cartão de visitas, "Luizão do Pacaembu". Sua identificação com a mais charmosa praça esportiva da cidade é tal que virou sobrenome. Quando começou, seu serviço era limpar os banheiros que ficavam nas laterais do portal de entrada, depois dos jogos, o que fez por dez anos. Hoje, depois de estudar no Senai e chegar a cursar dois anos de engenharia hidráulica, é assistente de direção. Mesmo aposentado, continua sendo "o" cara do Paca.

"Paca" é como às vezes se chama o estádio no bairro do Pacaembu, palavra que significa justamente "ribeirão das pacas". Antes dele, o bairro era quase desabitado, um vale encharcado onde as pacas passeavam. Foi nos anos 30 que uma companhia inglesa, a City, comprou os terrenos para construir ali uma "cidade jardim" e iniciou sua urbanização. Em 1933, com a profissionalização do futebol (impelida, entre outros motivos, pela perda de jogadores para o exterior, como Domingos da Guia, levado pelo Nacional do Uruguai), a cidade viu a necessidade de ter um estádio maior e mais moderno que o Parque Antarctica. E o vale do Pacaembu, cujas encostas facilitariam a construção das arquibancadas, foi logo apontado como endereço ideal.

Luizão do Pacaembu, que nasceu na Penha, ainda vive na zona leste e leva quase uma hora todo dia para chegar ao trabalho. "Por aqui não dá para morar, não", diz, referindo-se ao preço das residências nos arredores ditos nobres. Mas é no Pacaembu que ele se sente em casa. Chegou, aliás, a dormir muitas vezes no antigo alojamento do estádio, que ficava nos andares onde hoje está o museu. Ri quando perguntado sobre a lenda de que o alojamento é mal assombrado, pois o falecido zelador, Tim, "arrastaria correntes" por ali. "Isso é folclore", diz, lamentando em seguida que as salas administrativas também foram desalojadas pelo museu (hoje ocupam a área sob o tobogã). "Perdi uma história ao perder minha sala", resume, "mas sou a favor da modernização."

Erguido entre 1934 e 1940, o Pacaembu tinha o que era de mais moderno à época. Como um aqueduto modernista, o frontispício atravessa todo o vale com linhas curvas e colunas retas e o nome escrito em letras garrafais "art déco", segundo o design do maior escritório de arquitetura da época, o de Ramos de Azevedo. Para um observador que está no século 21, o fato de que o estádio foi descrito como "monumental" pela imprensa do período pode soar curioso, mas as torres lisas e esguias que se projetam não tinham outra intenção. Visto de cima, o complexo que une o estádio ao clube poliesportivo atrás lembra o formato de um navio, ancorado no coração de São Paulo. Ao fundo do gramado, em oposição ao portal, havia uma concha acústica (trocada pelo tobogã, para caber mais gente, em 1970) e uma réplica da estátua de Davi, de Michelangelo, hoje residente no Parque do Trabalhador, no Tatuapé.

"O Pacaembu fez muita gente sorrir e muita gente chorar nestes 70 anos", diz Luizão, quase sentenciosamente. É o maior exemplo disso. Pugilista amador, ele viu ali no ginásio poliesportivo um sujeito chamado Éder Jofre lutar, treinar e se preparar para ser o campeão mundial de 1960 a 1965. Boleiro, Luizão se cansou de jogar no gol do time de funcionários da casa, que antigamente usavam o próprio gramado oficial todas as semanas. Torcedor do Corinthians, viu craques de todos os times atuarem ali. "Dino Sani foi o maior que vi. Dino Sani e Rivellino. Mas foram tantos os que vi... Até Yashin pegar no gol eu vi! Tenho o "botton" dele até hoje. Edu, Gerson, Clodoaldo. E Pelé, é claro."

A inauguração do Pacaembu teve de tudo. Vigorava o Estado Novo, a ditadura decretada por Getúlio em 1937, e o futebol já era uma paixão nacional sem volta, como se demonstrara durante a Copa de 38, da qual Leônidas foi artilheiro. A propaganda oficial encampara o futebol como já fizera com o samba, e não são poucos os historiadores que veem na arquitetura do estádio a influência dos erguidos na Itália de Mussolini. O prefeito, Prestes Maia, estava transformando a cidade com grandes avenidas; o governador, Adhemar de Barros, enchia a boca e os bolsos ao anunciar "a metrópole do futuro". Mais de mil operários haviam trabalhado na construção, e a festa não poderia ser nada senão grandiosa. Mais de 70 mil pessoas encheram o local e 10 mil atletas brasileiros e estrangeiros desfilaram em blocos simétricos pelo gramado. O hino foi cantado e diversos números de balés clássicos foram apresentados.

Momentos tristes, porém, também marcam a história do Pacaembu. Foi ali que a seleção do Brasil empatou por 2 a 2 com a da Suíça na Copa de 50, aquela que perderia no Maracanã - o qual tiraria do Pacaembu o orgulho de ser o maior estádio de futebol do Brasil. Luizão se lembra dolorosamente das brigas de torcida, principalmente a batalha campal durante um São Paulo x Palmeiras na Taça Júnior de 1995. "No meu tempo não tinha nada disso. Nos anos 60 você via o corintiano sentado ao lado do palmeirense, ao lado do são-

paulino... A gente vinha ao estádio para se divertir, para admirar as jogadas", recorda. "Depois, nos anos 80, com as torcidas organizadas, tudo mudou para pior." Luizão também observa que o Pacaembu teve fase ruim, que segundo ele só acabou quando a prefeita Luiza Erundina mandou recuperar o estádio - e ele, Luizão, foi promovido, em 1992, e nunca mais precisou lavar banheiros.

A cerimônia foi descrita com tintas ufanistas pelos jornais. O Estado, por exemplo, falou em "aperfeiçoamento eugênico da raça", "acentos viris dos nossos hinos" e "forte entusiasmo cívico". Prestes Maia exaltou o presidente Getúlio, com quem São Paulo tinha relações mistas de aprovação e rejeição: "Este estádio, que se impõe pela grandeza e sobriedade, é um monumento oferecido à administração de vossa excelência, que erigiu a educação moral e física da sociedade em princípio constitucional." Getúlio, que teria sido vaiado por alguns, falou em seguida e não fez por menos, repetindo palavras como "monumental" e "orgulho" e arrancando aplausos gerais. "As linhas sóbrias e belas da sua imponente massa de cimento e ferro não valem apenas como expressão arquitetônica", acrescentou, "valem como uma afirmação da nossa capacidade e do esforço criador do novo regime."

Luizão só se afirmaria depois dos 40 anos e graças a um colega, José Luiz Bravo Rezende, 64 anos, há 26 anos encarregado da arrecadação do estádio. Bravo, como todo mundo o chama, e que não parece nada bravo, foi quem estimulou seu vizinho e amigo a estudar. "Sem ele, eu não teria chegado à faculdade", diz Luizão. Bravo conta que o máximo que viu o estádio receber foram 54 mil pessoas, mas que de 1995 para cá a capacidade teve de ser reduzida (hoje oficialmente é de 37 mil). Também mostra nostalgia pela paz das torcidas. Mas acha que o museu fez bem ao estádio, apesar da perda de sua "sala bem confortável", e, assim como Luizão, diz que não conseguiu ficar afastado quando se aposentou, há dois anos, antes de voltar como funcionário comissionado. "Nunca tive uma falta nem um atraso. Fiquei 25 anos sem férias", afirma. "Sou como mulher de marido rico: fico até me mandarem embora."

Políticas à parte, o Pacaembu está na memória da cidade não como um monumento patriótico nem como um elefante bege, mas como um estádio pequeno e aconchegante, num endereço acessível e elegante, onde Pelé e Romário fizeram gols antológicos - especialmente contra o Corinthians de Luizão. Ele e Bravo, por sinal, jamais gostaram da ideia de ver o estádio cedido ao clube (leia texto na página XX). Luizão até dá na canela: "O Corinthians não administra nem o Parque São Jorge; vai administrar o Pacaembu?" Para eles, o Pacaembu deve receber jogos de todos, como fez naquele 27 de abril de 1940. Primeiro, o Palestra - que mais tarde, com a virada de Getúlio durante a Segunda Guerra, se chamaria Palmeiras - goleou o Coritiba por 6 a 2. Depois, o Corinthians venceu o Atlético Mineiro por 4 a 2. E as multidões despertaram.

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