Jason Franson/AP
Jason Franson/AP

Pais de jogadores de hóquei no gelo buscam brechas para ver as partidas decisivas

Reta final da NHL, dos Estados Unidos, motiva familiares a cometerem loucuras para conseguirem acompanhar os jogos

Kevin Armstrong, do The New York Times, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2020 | 15h44

Carl Tuch, engenheiro elétrico, acordou no feriado do Dia do Trabalho, e com suas duas malas foi para o aeroporto pegar o avião às seis horas da manhã de Siracusa para Las Vegas. Seu filho Alex, ala direita do Vegas Golden Knights, time da liga nacional de hóquei no gelo dos Estados Unidos, era o único com as maiores chances de sucesso. Ele havia marcado oito gols no mês anterior a caminho das finais da Western Conference em Edmonton, Montana.

Carl Tuch construiu e manteve um rinque de gelo no seu quintal durante 18 invernos consecutivos e, em julho, instalou uma tela de 150 polegadas com projetor na parte de trás da sua casa de verão em Wellesley Island, Nova York, a 1,6 quilômetro da fronteira com o Canadá, pouco antes de a Liga Nacional de Hóquei (NHL) iniciar sua temporada em dois ambientes fechados no Canadá. Com a liga não permitindo público durante os jogos, ele ficou irritado por não estar na plateia, mas decidiu que uma tela no seu quintal era o melhor a fazer.

Mas quando Alex Tuch, de 24 anos, disse que as famílias dos jogadores estavam autorizadas a assistir à final da Stanley Cup presencialmente, seu pai pegou o avião imediatamente e se submeteu a uma semana em quarentena na casa do filho. Não havia garantias de que o Golden Knights, equipe mais bem classificada no Oeste, chegaria tão longe, ou que Carl Tuch acompanharia a equipe por causa da proibição do Canadá de entrada de americanos no país.

Mas se o Vegas vencer e o Canadá receber a equipe, um grupo de pais irá para Edmonton num avião reservado pelo time. À espera, Tuch aproveitava o bourbon Woodford Reserve do filho enquanto assistia ao jogo, vendo Alex marcar seu nono gol contra o Dallas Stars e se submetendo a testes diários para a covid-19. "Não o via desde fevereiro. Por muito tempo não o tenho visto. Estava torcendo".

Os pais dos atletas, por causa dos inúmeros riscos da pandemia, vêem-se impedidos de comparecer a muitos locais de competição na retomada das atividades esportivas e buscam brechas e voos de último minuto na esperança de torcer pelos filhos pessoalmente e não por meio dos programas ou transmissões ao vivo pela TV . Acostumados a assistir a um jogo no meio a grandes multidões, alguns estão acordando os vizinhos quando comemoram assistindo a uma partida no seu quintal.

Todos reconhecem que perdem alguns momentos que ocorrem uma única vez numa carreira. Quando o lançador do New York Mets, David Peterson, soube da sua promoção para as grandes ligas em julho, ele telefonou para sua mãe, Shannon, que vive em Denver, para contar a ela que logo começaria jogar a principal liga de Beisebol em Fenway Park. Os dois comemoraram distantes quase três mil quilômetros um do outro.

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ao mesmo tempo estou triste porque o que eu gostaria era estar lá para apoiá-lo
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Shanon Peterson, Mãe do jogador David Peterson, do New York Mets

"Era tudo o que eu queria, não poderia estar mais feliz por ele", disse ela. "Mas ao mesmo tempo estou triste porque o que eu gostaria era estar lá para apoiá-lo". Quando desligou o telefone, ela se comunicou com o agente dele, Mark O’Brien."Quais são as chances de conseguirmos uma exceção?", perguntou.

Ela recordou quando seu filho ainda usava fraldas, colocando uma luva na mão errada e declarando seu desejo de jogar numa grande liga. "Bem, melhor começar a praticar", disse ela na época.

Ele mais tarde começou as práticas e ela sempre o acompanhou. Quando Peterson tinha nove anos de idade, seu pai, Doug, morreu, e a mãe assumiu o papel de jogar com o filho. Viajou com ele pelo país acompanhando-o nos jogos. Eles conversaram sobre sua eventual estreia quando jogava em times menores, mas ela nunca imaginou ficar sentada numa sala assistindo a um jogo nervosa demais para ver com outras pessoas.

Depois de ele fazer 5 2/3 entradas em 28 de julho e se safar de uma barragem de bases e chegar a uma vitória, ela enviou a ele uma mensagem. "Fiquei muito feliz", disse.

Andrea Walker é sempre uma figura predileta dos produtores de TV quando seu filho Kemba, de 30 anos, joga. À medida que o filho crescia, Andrea procurava atender a todas as suas necessidades, levando até rabo de vaca, da sua casa no Bronx, para ele, quando jogava na universidade de Connecticut. Durante a disputa pelo título no campeonato da NCAA (National Collegiate Athletic Association), em 2011, toda vez que as câmeras focavam nas suas proezas em campo, elas também mostravam sua mãe saltando na arquibancada.

Quando o Charlotte Hornets o recrutou, ele comprou para ela uma casa distante 25 minutos de onde ele morava. Quando ele se mudou para Boston, no ano passado, depois de oito temporadas no Hornets, ela permaneceu em Nova York, mas em novembro estava de volta na arena de Charlotte torcendo pelo Celtics e vestindo a camiseta de número oito, do filho, com a frase MAMA WALKER bordada nas costas.

Mas Andrea teve de assistir aos jogos da sua varanda envidraçada na Carolina do Sul quando o Celtics retomou as partidas este verão, e se perguntando o que os vizinhos estariam pensando dos seus gritos durante os jogos tarde da noite.

Mas então a NBA anunciou que as famílias poderiam entrar no estádio depois da primeira rodada dos playoffs. Para se juntar ao contingente do Celtics, ela voou para Boston e depois para o campus da NBA na Flórida com membros das famílias de Jayson Tatum e Jaylen Brown, num avião particular. Eles ainda tiveram de passar por uma quarentena durante sete dias uma vez que a série do Celtics contra os Raptors se estendeu para sete jogos.

Na noite anterior ao sétimo jogo, Kemba telefonou para a mãe pelo FaceTime. "Vocês podem vir ao jogo?", ele perguntou. "Não, por isso vocês têm de vencer!", ela respondeu.

Ela assistiu à partida do seu quarto no hotel Grand Floridian, com um segurança estacionado no corredor diante da sua porta. Quando o Boston vencer, os membros das famílias dos jogadores abriram as portas dos quartos – ainda tendo de respeitar os protocolos e não podendo sair nos corredores – e gritaram.

De volta a Las Vegas, a aposta de Carl Tuch não deu bom resultado. O Golden Knights foi derrotado pelo Dallas Stars em cinco jogos, impedindo-o de ver seu filho jogar ao vivo.

Mas a família já está planejando seu próximo evento de hóquei. A mãe de Alex, Shannon, não foi a Las Vegas, pois o casal tem gêmeos que acabaram de entrar na faculdade este semestre: Leah entrou na universidade do Estado de Nova York e Luke é calouro na universidade de Boston. Ele também deverá ser selecionado na segunda rodada de recrutamento da NHL, que se realizará em outubro. A família está imaginando como conseguirão se reunir, se Luke volta para casa para a ocasião ou os pais irão a Boston. De qualquer modo, Carl pretende ver Luke jogar hóquei na universidade este inverno. "Se eles jogarem e me autorizarem a assistir, eu irei". / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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