Palhaço era o Arrelia

Palhaço é palavra mágica, poderosa, com forte carga emocional. Quem não é criança recupera um pouco da infância na presença de um palhaço. Marmanjos voltam a comportar-se como guris - com reações imprevisíveis. Tanto podem rir sem pudor como tomarem atitudes birrentas. Já vi barbados virarem meninos briguentos e não temerem o ridículo.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2010 | 00h00

Pois foi como um petiz que agiu Luiz Felipe Scolari no encerramento brusco da entrevista que concedeu depois do empate do Palmeiras com o Atlético-MG anteontem em Sete Lagoas. O treinador irritou-se com perguntas pertinentes a respeito de Valdivia e, entre um palavrão e outro, alegou que os repórteres estavam de "palhaçada". Não satisfeito com a ofensa infantil e generalizada, dirigiu-se para um jornalista e enfatizou: "Tu é mais palhaço ainda." Só faltou botar a língua pra fora, numa careta, e em seguida dizer: "Cospe aqui", como fazíamos em busca de encrenca com a turma da rua de baixo.

O rapaz que recebeu a ofensa ficou estático, surpreso, sem palavras. No que fez muito bem, pois se respondesse regrediria aos tempos do maternal. Alguns a sua volta riram e nem se deram conta de que estavam incluídos no rolo. São jovens profissionais que não aprenderam ainda a arte de indignar-se, e abaixam a cabeça diante de "celebridades".

O xingamento, se assim pudermos definir os termos "palhaçada" e "palhaço", foi tosco. Eu nunca me incomodei quando me chamaram de palhaço. É uma honra, devolvo. Ser palhaço é arte para poucos. É nobre, especial, diferente. Vivam os palhaços, hoje e sempre!

A questão é outra - e está a cutucar torcedores e jornalistas. Por que Felipão descontrolou-se pela segunda vez consecutiva, em três dias, por causa do meia? Por que perguntas a respeito da condição física do chileno o tiram do sério? O que há por trás dessa entra-e-sai esquisito de um jogador que representou investimento alto do clube e que até agora não conseguiu firmar-se?

Valdivia virou um mistério no Palmeiras. Demorou para entrar em forma, com a habitual explicação de que é assim mesmo, de que jogador que volta para o Brasil demora para recuperar o ritmo. Mais tarde, emendou uma fileira de boa de partidas, para cair novamente de rendimento. Recentemente, ficou amuado com o técnico por ter sido substituído. Na sequência, se machucou e começou a lengalenga atual.

As interrogações acumularam-se a partir do duelo com o Corinthians. Valdivia entrou no intervalo, no lugar de Lincoln, deu dois ou três piques, passou a colocar a mão na coxa e saiu com 20 e tantos minutos jogados. Felipão disse aos jornalistas que não havia nada de errado, a não ser um ligeiro desconforto provocado por fibrose. Por isso, decidira tirar Valdivia. Não convenceu. Ao contrário, ficou no ar a cisma de que pudesse haver algo mais.

Veio o jogo pela Sul-Americana e lá estava Valdivia no time titular desde o início. Quem esteve em Minas o viu levar a mão à coxa no aquecimento e ficou à espera de mudança de última hora. Com a bola a rolar, ficou 18 minutos e foi embora. Após o jogo, o médico do Palmeiras não quis dar entrevista, embora Felipão sugerisse aos repórteres que o procurassem.

O que era óbvio e sensato? Que fossem feitas perguntas para o treinador a respeito dessa inconstância de Valdivia. E foi o que fizeram os repórteres. Não havia afronta nem tentativa de tumultuar. É o que todo palmeirense está a perguntar-se agora. A reação de Felipão não esclareceu o episódio. Ao contrário, serviu para reforçar a suspeita de que há algo de errado nos bastidores. Nem todos falam a mesma língua no Palmeiras.

O retorno de Felipão, depois de oito anos de autoexílio, foi um dos acontecimentos mais festejados de 2010. Trata-se de personagem admirado, por sua história de conquistas, lealdade e transparência. Tem seu trabalho respeitado - e deveria devolver na mesma moeda.

Palhaços foram Arrelia, Pimentinha, Fuzarca, Torresmo, Carequinha e tantos outros reis do riso. Um brinde à memória deles! O resto é má criação.

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