Palmeiras é seu maior adversário

Certa vez, não muito tempo atrás, fui convidado para um bate-papo com o então conselheiro do Palmeiras Salvador Hugo Palaia. O local do encontro foi seu belo escritório no bairro do Itaim, região nobre da capital, de onde ele dirige seus empreendimentos imobiliários.

Wagner Vilaron, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2010 | 00h00

Fui recebido de maneira cordial. Palaia se mostrou um anfitrião simpático, ótimo papo, inteligente e dono de raciocínio rápido, característica que sempre admirei nas pessoas, sobretudo quando a utilizam com bom humor.

Lá pelas tantas, Palaia me surpreendeu. Ele abriu uma das gavetas da grande mesa de madeira de onde despacha e tirou um pequeno pedaço de papel. Em princípio, achei que se tratava de uma anotação, como um número de telefone. Só descobri que estava errado quando ele esticou o braço e me passou o pequeno objeto. Tratava-se de um extrato bancário. O valor não vem ao caso, mas posso dizer que terei de camelar mais alguns bons anos para sonhar em acumulá-lo como patrimônio.

Ao perceber meu semblante espantado, que misturava perplexidade e, confesso, certa dose de inveja, Palaia deu a explicação que, acreditava, me tranquilizaria, tamanha sua obviedade. Tratava-se da quantia que ele havia separado, do próprio bolso, para ajudar o clube. Mas a tal tranquilidade que Palaia esperava ver em minha reação não aconteceu. Pelo contrário, saí dali inquieto.

Já sei, alguns de vocês devem imaginar que por trás daquilo existia algum tipo de trambique, de irregularidade. Sinceramente, não acredito. Palaia me pareceu extremamente bem intencionado em seu gesto. Minha inquietude, na verdade, não era com o dinheiro, mas sim com a linha de pensamento.

Para aquele senhor, era natural que um dirigente bem-sucedido em sua atividade profissional usasse recursos pessoais para pagar dívidas do clube.

Por isso, não me surpreenderia se nos próximos dias aparecessem manchetes do tipo "com pagamentos em dia, Palmeiras se recupera no Brasileiro". Mas pergunto: esse tipo de atitude, comum no futebol, mais ajuda ou atrapalha o clube?

Tudo bem, no primeiro momento pode parecer interessante, pois com salários e direitos de imagem em dia, os jogadores rendem mais, o time vence jogos e deixa a torcida feliz, como aconteceu ontem, contra o Inter. E cá entre nós, nove em cada dez torcedores não estão nem aí para a saúde financeira do clube. O negócio é ganhar títulos, e que se danem os cofres.

No entanto, essa linha de raciocínio, repito, comum a vários dirigentes, é arcaica e, sim, perigosíssima, pois traz efeitos colaterais devastadores, como o comodismo e um intenso conflito de vaidades. Afinal, quem dá dinheiro se sente dono, credor, poderoso.

Não é por acaso que o Palmeiras caminha atrás de seus rivais no processo de modernização. Embora o clube tenha projetos arrojados, como a construção da Arena Palestra, continua corroendo de dentro para fora, vítima de intrigas pessoais de seus dirigentes.

A maioria dos torcedores, tomada pela paixão, odeia quando ouve ou lê que tudo que o clube ganhou nos últimos 25 anos foi graças à presença de um parceiro (Parmalat e Traffic). Com sua própria competência administrativa, o Palmeiras não honra a mais bela camisa do futebol brasileiro (a tradicional verde, na minha opinião) desde o Paulista de 1976.

O currículo e as boas intenções de Luiz Gonzaga Belluzzo não o impediram de protagonizar uma desilusão como administrador. A dívida do clube cresceu, as contas de agosto foram rejeitadas e as conquistas do futebol ficaram aquém do esperado.

Para piorar, a oposição já detecta problemas sérios. O ex-presidente Mustafá Contursi não esconde de ninguém que vai cobrar esclarecimentos sobre a situação de Valdivia. "Ninguém pagou um centavo até agora pelo Valdivia. São R$ 15 milhões que deixaram para o próximo presidente resolver. Isso é um calote no próprio Palmeiras", discursa o dirigente, que sofre forte restrição entre os torcedores, mas ainda é muito poderoso no Parque Antártica.

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