Palmeiras não quis ser a próxima vítima

O Palmeiras não precisava se sentir culpado de nada. Não havia motivo para se conformar em ser a próxima vítima como tantos outros times que observaram, estudaram, definiram esquemas e não foram capazes de barrar a velocidade nem o passe do Santos.

Paulo Calçade, O Estadao de S.Paulo

15 de março de 2010 | 00h00

Até os 30 minutos do primeiro tempo, o jogo parecia tentadoramente fácil. Havia no ar a impressão de que o Santos conseguiria jogar bem até com o piloto automático ligado, num ritmo mais lento, com uma quantidade menor de tabelas, sem aquela movimentação absurda das partidas anteriores. E, surpreendentemente, com menos posse de bola.

Havia pela frente um clássico diante de uma equipe instável, machucada por ser tratada como mais um filé diante dos famintos da Vila. E parecia caminhar para isso, pois uma tentativa de cruzamento do lateral Pará colocou o Santos na frente, na boa, sem esforço. O segundo gol surgiu com Neymar, em mais um passe espetacular de Paulo Henrique Ganso, no meio da defesa palmeirense.

Quando o Palmeiras já andava com o ingresso na mão para ser mais um nome na lista dos shows pirotécnicos do time de Dorival Júnior, Robert começou a mudar a história da partida. Com dois gols, reconduziu o grupo à disputa.

O empate, no final do primeiro tempo, mudou o discurso no vestiário, separou homens de meninos e devolveu a campo uma equipe com outra fisionomia, que agora tinha a convicção de que não seria a próxima vítima.

Já faz tempo que Muricy Ramalho deixou o Palmeiras, mas o antigo treinador deve ter identificado um pouco do seu time na tela da televisão. Pela instabilidade da marcação, daqueles piores momentos do Campeonato Brasileiro 2009, aos gols das bolas pelo alto e o excesso de cruzamentos.

A sofisticação do futebol santista nasce de uma simplicidade que os números não mostram. A estatística do percentual de acerto de passes às vezes é ilusória, mistura times que arriscam muito com os que apenas se protegem, tocando de lado. No futebol, a ousadia e o risco são, obviamente, mais excitantes.

Tecnicamente, o que se vê em campo é simples para quem executa e intrigante para quem sonha em não ser o próximo da lista. Existem coisas impossíveis de serem copiadas. O Palmeiras sabia bem disso.

A moldura do jogo santista é o risco. Poucos treinadores conseguem identificar oportunidades tão claras, o momento certo de se juntar a elas e jogar junto. Dorival Júnior tem a primeira qualidade dos grandes comandantes: não atrapalhar. E vai além, é capaz de escalar um time com apenas um volante.

A superioridade técnica do Santos gera supremacia tática, amplia o espaço da equipe em campo, aumenta a posse de bola e domina o cenário do jogo. Esse pacote é resultado do rendimento físico. Sem mobilidade e velocidade, um mantra desta coluna, o Santos apenas teria jogadores talentosos formando um bom time.

E tudo isso acontece sem muito tempo para treinamentos. A cada três dias e meio, desde o início do Paulista, o time vai a campo. Depois da espetacular virada palmeirense, com três gols do jogador mais criticado do Palestra Itália, a última coisa a se fazer é utilizar esses argumentos como desculpa.

O Palmeiras mereceu a vitória, tirou o Santos do prumo e viu Neymar em versão brucutu ser expulso de campo. Desta vez, os meninos não brincaram, nem lembraram de suas famosas firulas que aparecem com o jogo já definido. Se o Palmeiras conseguir entender o significado do que fez em campo, pode ter um bom recomeço agora com a chegada de novos jogadores, como o atacante Ewerthon e o meia Lincoln, que estrearam ontem à tarde na Vila Belmiro.

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