Palmeiras refém de suas famílias

Histórico de desavenças entre seus dirigentes impede o clube de adotar uma gestão profissional do seu futebol

GLAUCO DE PIERRI, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2012 | 03h02

Primeiro semestre de 2012. Um combalido Palmeiras acaba de ser eliminado pelo Guarani nas quartas de final do Paulistão e, desacreditado, ainda sonha com o título da Copa do Brasil. Em meio aos apelos da comissão técnica por reforços de peso para o time, o Conselho de Orientação e Fiscalização (COF) do clube se reúne, como de praxe, para discutir assuntos relevantes da vida alviverde. Em meio à pauta do encontro, o presidente Arnaldo Tirone se vê obrigado a questionar, informalmente, o colegiado em relação à marca de pó de café que vai ser servido pelos próximos meses. A unanimidade da escolha evitou que o tema fosse para votação.

Maior campeão nacional do País e último time brasileiro a levantar uma taça, mas encurralado na zona de rebaixamento do Campeonato Brasileiro, o Palmeiras vive sua rotina de crises - dentro e fora de campo. Se nas quatro linhas Gilson Kleina tenta salvar a equipe, nos bastidores a sempre efervescente política alviverde pulsa forte a pouco mais de três meses da eleição para presidente.

Conchavos, mudanças de lado, costuras entre diferentes grupos, reuniões em pizzarias e em casas de conselheiros, que fazem questão de evocar as origens italianas para justificar mandos e desmandos, e o chamado "sangue quente". Apesar de ter todo o poder para decidir, um presidente nunca deixa de consultar seus partidários em qualquer situação. É assim que a política palmeirense funciona, há décadas com as mesmas figuras entre os principais caciques do clube.

A principal briga política que cerca o clube começou de fato em 1978, quando Jordão Bruno Sacomani sofreu impeachment. Na época, os cardeais Paschoal Walter Byron Giuliano, Arnaldo Tirone (pai do atual presidente), Delphino Facchina, Brício Pompeu de Toledo, Nelson Duque, Francisco Hipólito, entre outros, davam as cartas na agremiação. Ao mesmo tempo, uma nova ala surgia, ganhava força e dominaria o cenário nos anos seguintes - Mustafá Contursi, Carlos Bernardo Facchina Nunes (sobrinho de Delphino), Seraphim Del Grande, Salvador Hugo Palaia e Affonso Della Monica, aliados a personalidades da época, como o economista Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo.

O período de vacas magras do Palmeiras (de 1976 a 1993, sem títulos) acirrou a crise política, mas a chegada da cogestora e patrocinadora Parmalat, em 1992, dava esperança ao torcedor de que o clube se profissionalizasse. Um ano depois, já com Mustafá Contursi no comando, o time voltou a conquistar títulos e a disputa pelo poder aumentou.

No final de 1996, uma mudança no estatuto permitiu mais uma reeleição de Mustafá. O grupo liderado por Seraphim Del Grande e Gilberto Cipullo se sentiu traído e rompeu com os aliados do presidente - cisão que domina e contamina o ambiente palmeirense até os dias atuais. Absoluto no poder, Mustafá trouxe Roberto Frizzo para seu lado e pode ser considerado como o único presidente do Palmeiras que, de fato, exerceu o poder como bem entendeu.

Após o término da parceria com a Parmalat, implementou no começo dos anos 2000 a chamada política do "bom e barato", odiada pela torcida e cujo reflexo em campo era um time com um ídolo, o goleiro Marcos, e recheado de jogadores medíocres. A aversão aos craques culminou com o rebaixamento à Série B em 2002. Mustafá só saiu do poder no final de 2004.

Hoje, Arnaldo Tirone sofre nas mãos dos aliados que o elegeram, da mesma forma como seus antecessores Della Monica e Belluzzo, e é acusado de não ter pulso firme. O presidente, que viu dois de seus vices pedirem afastamento do cargo na última semana, sabe que só chegou ao cargo graças às negociações e teme deixar parte de seu grupo descontente - ele até já admite não tentar a reeleição.

É ponto de honra para Tirone ser o líder maior quando a Nova Arena será inaugurada, em 2013, e ainda nas celebrações do centenário, em 2014. O resultado desse corporativismo político, por mais que seja negado aos quatro cantos, desaba dentro de campo e na explosiva arquibancada, sempre instigada e muitas vezes usada por alas descontentes dos cartolas.

Um exemplo prático dessa política de conchavos ocorreu há cerca de duas semanas. Após a derrota para o Vasco por 3 a 1, Tirone queria manter Luiz Felipe Scolari como treinador, mas teve de ceder aos correligionários, que ameaçaram retirar o apoio no pleito de janeiro se não dispensasse Felipão. Assustado, o presidente cedeu e trouxe Kleina que, além de tentar salvar o time, pode, em janeiro, salvar também o presidente.

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