Para a história

Se você vive no Brasil, nos últimos dias certamente ouviu fragmentos de conversas como estes: "Vai ser um jogão...", "O Barcelona é um timaço, mas...", "Não vai ser mole para o Santos...", "A defesa do Peixe é fraca...", "A defesa do Barça é fraca...", "Neymar é melhor que Messi...", "Messi é melhor que Neymar...", e por aí vai. Conversas assim ficaram reverberando em nossos ouvidos, o que me levou a pensar nos pobres coitados que detestam futebol. Como ocorre em época de Copa do Mundo, a única alternativa para os avessos ao velho esporte bretão é o autoexílio. E não adianta apenas fugir para outro país, porque, quando o assunto é futebol, o mundo todo fala a mesma língua. O jeito é isolar-se na floresta, nas montanhas, na Antártida ou numa cidade do interior do Wyoming. Sem televisão, claro.

MARCOS CAETANO, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2011 | 03h05

O fato é que o jogo ansiosamente esperado por quase todos os terráqueos que gostam de futebol acontecerá às 8h30 deste domingo. Em Yokohama, Santos e Barcelona medirão forças pelo Mundial de Clubes. Um jogo que será histórico, mas não exatamente pelos motivos que vêm sendo comentados.

Em primeiro lugar, a partida não decidirá quem é a melhor equipe do mundo. Esse mérito é do Barcelona, aconteça o que acontecer, já que uma derrota na competição que ainda não é tão valorizada pelos europeus quanto pelos sul-americanos - embora isso venha mudando - não será suficiente para tirar a glória de um esquadrão que vem conquistando nove de cada dez torneios disputados, marca que só o Santos de Pelé e o Real Madrid de Puskas e Di Stéfano foram capazes de conseguir. Tudo isso, vale dizer, só tornará ainda maior uma eventual vitória santista, que, com ela, manterá sua vantagem sobre o Barça, não na visão de momento, mas na histórica.

O confronto entre Messi e Neymar de domingo tampouco será o maior do século. Por quê? Ora, porque Neymar tem 19 anos e Messi, 23. A final do Mundial deverá ser apenas o primeiro de muitos embates que ainda veremos entre os dois craques. Seja por seus clubes, seja pelas seleções de Argentina e Brasil, os garotos ainda se enfrentarão muitas vezes. Quem sabe se um desses confrontos não poderá ser a final de Copa do Mundo de 2014, em pleno Maracanã. Esse sim, seria o jogo do século.

Outra coisa importante sobre a final de domingo é que o torcedor brasileiro tem toda a liberdade de apoiar ou secar o Santos. Trata-se de um torneio de clubes - e a história dos clubes é uma história de rivalidade com outros clubes. Embora pessoalmente eu deseje ver o Santos campeão, jamais considerarei antipatriotas os que torcerem pelo Barça porque seu clube é rival do Santos ou porque consideram o futebol do Barcelona tão belo que não merece perder. Os madridistas também enxergarão no uniforme do Santos o mesmo branco merengue de seu pavilhão, e torcerão muito contra os catalães. Sem deixar de ser espanhóis por causa disso.

Santos x Barcelona será um jogo histórico porque marcará o primeiro grande confronto de dois craques e dois clubes que têm tudo para continuar se cruzando ao longo da próxima década. Tomara que seja assim. E que a partida seja tão bonita, aberta e surpreendente quanto todos nós sonhamos. Todos, exceto aquele sujeito que se autoexilou no Wyoming.

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