Para que servem os técnicos

Dunga continuou a dar ouvidos às críticas e a seleção brasileira evoluiu muito nos últimos dois jogos da Copa das Confederações. A entrada de Ramires no lugar de Elano, embora André Santos já esteja melhor do que Kléber, fez a principal diferença. E não só por causa do que Ramires joga, mas também pelo papel tático que desempenha. Com ele, o Brasil ataca com muitos jogadores, não apenas se defende. Ele ajuda na marcação, corre muito e se apresenta no ataque, como fez no terceiro gol da vitória sobre a decadente Itália. A linha de três volantes, em que Dunga tanto insistiu, hoje não existe mais.Defender com muitos e atacar com muitos não significa que não haja áreas de movimentação que pedem características especiais. Volantes e laterais, por exemplo, não podem ser lentos. Daniel Alves é mais habilidoso que Máicon, mas com este o Brasil ganha jogada pela ponta que não tinha antes, pois aquele centraliza demais. Robinho tem tendência de cair pela esquerda para poder dar seus cortes para a direita, o que de certa maneira explica que André Santos não precise subir tanto - e vai exigir que se aprimore na marcação se quiser ser o titular de vez. Lá na frente é essencial um jogador com faro e fome de gol, como Luís Fabiano.O bom técnico extrai o melhor de cada jogador fazendo valer sua vocação e ao mesmo tempo cobrando seu diálogo com os demais. Nesse aspecto, Robinho ainda está devendo por seu egoísmo e Gilberto Silva por sua baixa mobilidade. No conjunto, a seleção não tem nenhum craque do mesmo nível daqueles que tinha quando venceu as cinco Copas, ainda que Kaká seja decisivo e renda muito quando tem espaços. A imprensa já está caindo no oba-oba perigoso que antecede as Copas. Mas ninguém pode negar que o conjunto hoje está quase à altura do elenco. Não é para isso que os técnicos servem?Muricy Ramalho serviu para isso durante três longos anos para o São Paulo. Sem ter craques realmente dignos do nome, e nem ao menos um meia armador, ele criou um padrão de jogo consistente, que, por depender bastante do treinamento e do preparo físico, demorava a engrenar. Muita gente não viu seus méritos e o acusou de promover um futebol feio ou defensivo. Mas o fato é que seu time cometia número baixo de faltas e produzia muitas finalizações por jogo. Em 2009, porém, a queda de rendimento de seus dois principais articuladores, Hernanes e Jorge Wagner, a venda ou contusão de outros, como Rogério Ceni e os zagueiros, a decepção de algumas contratações, como o limitado Washington, a escalação de dois volantes de marcação, um deles Eduardo Costa, e um desgaste natural de ciclo se somaram para tornar insustentável a continuidade. Resta ver se Ricardo Gomes é o nome certo para driblar tantos problemas.Outro que entrou mais recentemente num degringolar é Tite. O Internacional não consegue compensar as ausências de D?Alessandro e Nilmar e não tem laterais de destaque; não dá para viver apenas de Guiñazu e Taison. Contra um Corinthians mais coeso, com um Ronaldo a desequilibrar diante do gol - embora Mano Menezes ainda precise encontrar formas de acioná-lo que não venham apenas de Elias e Cristian -, o Inter teve dificuldades. O técnico não tem culpa pelos desfalques, embora tenha pecado na organização da defesa e no rodízio do banco. A eliminação na Copa do Brasil pode sair cara; se vencer, porém, tudo isto se apaga. Técnicos, como goleiros, chamam mais atenção quando falham. E as diretorias que compram mal e vendem mal seguem no mesmo lugar.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.