Paraolímpico supera Canal da Mancha

Paulista radicado na Bahia, Marcelo Collet nadou por 10h06min40 os 40 km que separam a Inglaterra da França

Bruno Lousada, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2010 | 00h00

No dia em que completou 30 anos, Marcelo Collet, um paulista radicado na Bahia, entrou para a história da natação. Superou o mar gelado, o cansaço, a ansiedade e venceu um dos grandes desafios de sua vida. Tornou-se o primeiro atleta paraolímpico do mundo a concluir a Travessia do Canal da Mancha, considerada a mais difícil em águas abertas. Ele fez o percurso de quase 40 quilômetros, entre a Inglaterra e a França, em 10h06min40, e vibrou bastante. "Estou muito, mais muito feliz mesmo. Não dá nem para acreditar", disse Collet ao Estado, enquanto descansava no quarto de um hotel na cidade de Folkestone, na Inglaterra. De tão exausto, nem ia sair para comemorar. Só queria dormir para relaxar o corpo e sonhar com a glória alcançada com suor, perseverança e dedicação.

"A ficha ainda não caiu. Aproximadamente 90% dos atletas não conseguem completar a travessia. Foi um dia inesquecível, melhor impossível", disse, com a voz carregada de emoção. Há dois anos, Collet vinha treinando forte para realizar esse sonho. Queria testar o limite do seu corpo e passou com louvor.

Ele podia ser chamado a qualquer hora do dia ou da noite, nesta semana, para fazer a travessia. Na segunda-feira, chegou a se preparar para cair na água, mas o vento forte cancelou a saída.

Na quinta-feira à noite, enquanto jantava, veio a boa notícia: a prova seria realizada no seu aniversário.

"Eu já estava imaginando mil coisas, pensando que, depois de dois anos, poderia chegar aqui e não competir". Mas deu tudo certo. Às 2 horas (de Brasília), começou a nadar "com o vento tranquilo, muito sol" e só parou quando devia.

Collet traçou pequenas metas para não sentir o peso das dez horas de natação. De 30 em 30 minutos, hidratou-se e ingeriu carboidrato. Só comeu uma fruta, logo no início. Apesar de todos os cuidados, sentiu enjoo, frio e "um pouco de dor na lombar". "Mas consegui superar." Durante todo o trajeto, o nadador foi acompanhado por um barco com guia e treinador.

Sua vida é marcada pela superação e por um acidente trágico. Aos 17 anos, então competidor de triatlo, Collet foi atropelado em Salvador durante um treino de ciclismo. Perdeu o movimento da perna esquerda, mas não a esperança de voltar a praticar esporte.

Três anos depois, por influência dos pais, começou a se dedicar só à natação e passou a defender a seleção paraolímpica.

"Nasci para ser feliz. A minha história está sendo escrita", disse, durante o Mundial de Natação, em Eindhoven, no mês passado. Em 2011, o cineasta baiano Felipe Kowalczuk vai lançar documentário sobre a preparação e a travessia de Collet, também estudante de cinema.

"Espero que seja um sucesso", declarou o nadador, que já participou de dois Parapan-Americanos (Mar Del Plata e Rio de Janeiro), quando conquistou quatro medalhas, e dois Jogos Paraolímpicos (Atenas e Pequim).

Na próxima semana, ele retorna a Salvador. Vai matar a saudade da família e dos amigos. "Volto com a sensação do dever cumprido. Estou orgulhoso."

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