Parentes de atletas israelenses mortos em Munique querem homenagem

Há 40 anos, o mundo se indignava com o maior atentado terrorista da história das Olimpíadas

Gabriel Toueg, O Estado de S.Paulo

26 de julho de 2012 | 04h51

SÃO PAULO - No início desta semana, o presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), Jacques Rogge, prestou uma homenagem aos atletas israelenses mortos nos Jogos de 1972 por terroristas do grupo Setembro Negro. Na ocasião, a quatro dias da cerimônia de abertura das Olimpíadas de Londres, Rogge disse que "as onze vítimas dessa tragédia foram a Munique num espírito de paz e solidariedade. Devemos a eles manter esse espírito vivo e lembrá-los". Logo depois, fez-se um minuto de silêncio.

Um dia antes, o prefeito de Londres, Boris Johnson, inaugurou uma placa comemorativa ao ataque de Munique perto da Vila Olímpica. As homenagens de Rogge e Johnson, contudo, não deixaram satisfeitos parentes das vítimas, como a viúva do esgrimista Andrey Spitzer, Ankie. Há quarenta anos, desde o ataque que matou o marido e outros 10 esportistas israelenses na Alemanha, ela e Ilana Romano, viúva do halterofilista Yossef Romano, viajam para as cidades-sede dos Jogos Olímpicos em busca da concordância para a realização de uma homenagem na cerimônia de abertura, evento acompanhado por bilhões de pessoas no mundo todo.

"Sempre houve uma desculpa", disse Ankie ao Estado. "Em Montreal, em 1976, nos disseram que não fariam um minuto de silêncio porque as delegações de 21 países (árabes) poderiam boicotar os Jogos e partir", relembra. Anos mais tarde, nos Jogos de 1992 em Barcelona, teriam dito a ela que fazer uma homenagem aos israelenses seria “trazer a política” para um evento olímpico. "Disseram que o protocolo era estrito e que não haveria espaço para um ato de lembrança." As "desculpas", como ela chama, se repetiram outras vezes ao longo das quatro décadas.

A questão da política foi usada novamente pelo COI este ano em Londres. Rogge e os dirigentes da entidade disseram que não farão um minuto de silêncio na abertura dos Jogos, que acontece amanhã (sexta), para evitar a “politização” da cerimônia. Ankie, que está em Londres esta semana, entregou ao COI uma petição com 105 mil assinaturas por um minuto de silêncio no ato. Autoridades em Londres e em Washington, como parlamentares britânicos e o presidente Barack Obama, deram apoio à iniciativa.

Sobrevivente do ataque, Shaul Ladany vive atualmente no sul de Israel. Para ele, é uma “piada” fazerem um minuto de silêncio "longe dos holofotes, em um ato não oficial". Ladany lembrou que em setembro, no aniversário de 40 anos, será realizada uma cerimônia no aeroporto militar de Munique, palco do trágico desfecho da tentativa de resgatar os atletas. "Será uma ocasião completamente desconectada das Olimíadas, à qual poucas pessoas assistirão."

FAMÍLIA OLÍMPICA

"Eles (os atletas mortos) era integrantes da família olímpica. Não estavam em Munique ao acaso, eram convidados e participavam de um evento olímpico", disse Ankie. "O COI deveria fazer uma homenagem para lembrar deles." Segundo ela, há hoje 46 delegações de países árabes e muçulmanos. "Se eles querem deixar os Jogos, que deixem. Há 204 nações participando", afirmou, antes de embarcar para Londres.

A professora de Educação Fìsica Esther Roth Shahamorov era uma das atletas israelenses em Munique em 1972. O treinador dela, Amitsur Shapira, morreu no ataque do Setembro Negro. "Aos 20 anos, entendi que as decisões de líderes são tomadas não por lógica, mas por interesses", afirmou. Para ela, Rogge, que também competiu na Alemanha, sente compromisso em homenagear os atletas israelenses. "Se dependesse apenas dele, acredito que esse minuto de silêncio seria realizado", disse. Ladany se diz "desapontado" com a decisão do COI. "Alegam razões como a política, mas não fazer uma homenagem para evitar o boicote de países árabes já é um ato político."

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